Mísseis para as massas

Esta sexta-feira, dia 13, a Coreia do Norte lançou mais 7 mísseis para o oceano, como já tem feito no passado. E como sucedeu nas últimas semanas, foi uma resposta ao exercícios Foal Eagle, desenvolvidos pela Coreia do Sul e pelos Estados Unidos com vista a treinar as capacidades militares dessas duas nações para o caso de uma agressão da Coreia do Norte ou de outras potências regionais, nomeadamente o dragão gigante para lá do oceano. Convém ter em conta que o lançamento destes mísseis não é nada fora do comum. Faz parte da retórica hiper-agressiva do governo de Pyongyang, que serve sobretudo para consumo interno.

Convenhamos que apesar de a Coreia do Norte ter um número impressionante de peças de artilharia, e até se fala de vastas reservas de armamento químico e uma ou duas bombas nucleares (apesar de este último facto ser questionado por algumas fontes), a verdade é que não teria qualquer hipótese num conflito convencional contra os seus adversários.

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O seu equipamento e a sua doutrina estão terrivelmente desatualizados.

No entanto, o militarismo norte-coreano tem um objetivo. Veja-se que a população norte-coreana vive na pobreza absoluta e é mantida na linha por um regime totalitário que se baseia no terror. É algo que parece saído da novela "1984", ou dos jogos "Warhammer 40.000", em que a função do inimigo é de exterminar a população norte-coreana, e assim se mantém a legitimidade do governo. Pelo que o lançamento destas armas e a retórica agressiva servem sobretudo para controlar a população. Ainda para mais, convenhamos que a Coreia do Norte só existe como estado porque é útil à China como estado-tampão contra os seus inimigos a oriente (Seul, Tóquio, Taipé). E a verdade é que a reconstrução da Coreia do Norte, mesmo no seu estado atual, se houvesse uma transição pacífica, seria extremamente custosa para Seul ou para os Estados Unidos.

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Ou pelo menos assim me parece.

Notas finais:

Evidentemente que esta posição não significa que a possibilidade de conflito militar seja nula. Pelo contrário, a manutenção de um constante estado de tensão significa que basta um erro para descontrolar toda a situação. No entanto, as características do regime de Pyongyang implicam que a sua legitimidade requeira um constante estado de emergência, daí a minha referência à ficção-científica, nomeadamente a dois dos mais extremos exemplos de tal realidade. Basicamente, governos totalitários deste género necessitam de convencer a população não apenas de que os estrangeiros anseiam por a exterminar, como que o regime é a sua única tábua de salvação. Um aligeirar desta aproximação poderá levar à perda da influência sobre o povo. Mas mesmo aqui há limites, e um dos maiores medos em relação ao regime de Pyongyang é sobre o que sucederá se alguma vez este se sentir realmente fragilizado.

Por outro lado Seul sofre dos seus próprios problemas económicos, como a bolha imobiliária à beira de rebentar, com resultados potencialmente desastrosos.

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Basicamente, não existem nem os recursos nem o interesse em anexar o Norte, que requereria grandes esforços de reconstrução e estabelecimento de infraestruturas (que não existem) numa tal situação.