Portugal tem quase 41 anos de democracia e seria de esperar alguma maturidade e evolução, credíveis possibilidades de escolha na hora de votar. Em mais de quatro décadas, era expectável que a consciência política nacional tivesse crescido, que o envolvimento popular estivesse enraizado. Mas não; 41 anos depois, sente-se no eleitorado português um cansaço e um enorme e vincado descrédito nos partidos tradicionais. Já quase ninguém parece acreditar que PSD e PS sejam diferentes, que o PCP passe da "cepa torta", que o BE consiga dar o salto e que o CDS não seja apenas uma solução de emergência para formar maiorias. A política nacional versão 1.0 bateu no fundo e a consequência é o alheamento da maioria dos portugueses nos processos eleitorais.

Publicidade
Publicidade

Conscientes do obsoletismo da versão inicial e eles próprios cansados e descrentes, várias figuras ligadas à política nacional decidiram dar o passo em frente. Certamente também influenciados por movimentos semelhantes em Espanha, com o Podemos de Pablo Iglesias a liderar as intenções de voto, ou na Grécia, com o recente exemplo da vitória do Syriza nas eleições, vários grupos de cidadãos juntaram-se e formaram modernas e actuais alternativas aos clássicos partidos.

Mais ou menos apartidários e mais ou menos revolucionários, os recentes movimentos pouco bebem das ideologias dos manuais políticos e tentam fugir aos rótulos de esquerda, direita ou assim-assim. São essencialmente conjuntos de pessoas que partilham ideias e soluções para o país e que, com base nessa simplicidade, querem cativar tantos que não se revêm nos partidos de sempre e os seus membros.

Publicidade

Mais do que ideologias, estes movimentos são recheados de pessoas e é esse o seu principal trunfo.

O primeiro a nascer foi o Livre, em 2013. Um partido que, como dá a entender o nome, pretende libertar-se do classicismo partidário e abriu-se à participação popular de todos que se revejam nos seus princípios de universalismo, liberdade, igualdade, solidariedade e ecologia.

A mesma forma de abertura tem o movimento Tempo de Avançar, lançado em Novembro de 2014, respondendo a um sentimento de urgência nacional para mudar a política em Portugal. Está intimamente ligado ao Livre, mas também ao Fórum Manifesto, à Renovação Comunista e ao MIC-Porto. Conta com nomes bem conhecidos, como Ana Drago, Ricardo Sá Fernandes ou Júlio Machado Vaz. Livre Tempo de Avançar é o nome da candidatura cidadã às próximas eleições, para "os portugueses que não se revêm no quadro político que têm, nas forças partidárias que têm".

Mais recente ainda é o Agir, nascido do movimento Juntos Podemos e que tem como principal rosto Joana Amaral Dias.

Publicidade

Tem a pretensão de se apresentar às próximas legislativas como partido e uma verdadeira alternativa. Acolhe pessoas de diversos quadrantes políticos, do PCP ao BE, passando por PS e PSD.

A política nacional segue, assim, a tendência europeia e procura aproximar-se dos cidadãos, mas ainda é uma incógnita se, num país tão costumeiro como o nosso, será possível alcançar os mesmos resultados do Podemos ou do Syriza. Teme-se que a proliferação destes movimentos seja uma espécie de "canibalismo" que acabe por beneficiar, como sempre, os mesmos partidos. Certo é que entramos numa versão 2.0 da democracia, ainda que numa fase Beta, sujeita a testes.