Olhar para a sangria de migrantes do Norte de África em direção à Europa e tentar defini-la como a simples procura por um futuro melhor, representa uma perspetiva não só redutora mas também hipócrita da parte de quem tem culpas no cartório desta autêntica desgraça. Estas mortes não são um paradigma de 2015. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, em 2011 cerca de 1500 migrantes clandestinos perderam a vida nas águas que separam a África da Europa.

Mas, em vez de estarmos a discutir as tentativas de os reter para lá do Mare Nostrum, ou mesmo a possibilidade de intervir militarmente contra os traficantes, os líderes políticos, os media e as populações clarividentes no geral devem indagar-se acerca da origem destas tentativas de fuga em direção ao continente europeu, entregando a própria vida ao desconhecido.

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Em 2010, a Itália e a União Europeia colaboravam de forma estreita com a Líbia para que esta detivesse os fluxos migratórios em relação à Europa, ou seja, pagavam ao ditador líbio, Muammar Khadafi, para fazer o trabalho sujo de conter os migrantes clandestinos e os radicais islâmicos em território africano e entregues à sua sorte. Mas, um pequeno problema intrometeu-se nas engrenagens desta máquina pérfida de controlo e desrespeito pela condição humana: a tentativa de independência económica e financeira por parte de um grupo de países africanos.

Após ter patrocinado de forma ilegal a primeira campanha de Sarkozy à presidência da França, Khadafi é ironicamente apeado do poder e morto por guerrilheiros líbios fortemente apoiados por militares franceses, em outubro de 2011. A barreira que mantinha seguros os migrantes derrubou-se e começou a sangria populacional no Mediterrâneo, assim como o caos na Líbia.

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Para quem desconhece, o turning point em relação ao país do Norte de África pode parecer algo paradoxal mas, se tentarmos perceber as razões por detrás desta intervenção que pôs fim ao regime ditatorial vigente na Líbia, desde 1969, ficamos com a clara noção de que os interesses neocoloniais suplantaram mais uma vez os direitos humanos.

Khadafi era o principal instigador da criação de uma federação de países africanos. O sanguinário e irascível ditador líbio pretendia criar o Banco de Investimento Africano, na Líbia, o Fundo Monetário Africano, nos Camarões, e o Banco Central Africano, na Nigéria, que levaria à cunhagem de uma moeda continental em detrimento do franco francês utilizado por muitos países. Uma herança da era colonial e que é bastante favorável à França, nomeadamente no aspeto económico e financeiro das transações comerciais.

Apesar de não ser um fervoroso adepto da democracia ao estilo ocidental, Khadafi talvez não fosse o ditador ao estilo hitleriano que a Europa fez dele.

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A tentativa de tornar o continente africano mais forte e coeso, como forma de tirar proveito dos seus recursos e matérias-primas, fez dele um alvo a abater por quem tem pretensões de manter um controlo dissimulado sobre as regiões que anteriormente estavam sob domínio colonial.

A queda do ex-líder da Líbia quebrou por completo as barreiras que continham o fluxo migratório em direção à Europa e conduziu ao estado calamitoso a que hoje assistimos, com pessoas a morrerem como animais amontoados em porões de cargueiros sobrelotados. Apesar de não ser totalmente causada pela intervenção ocidental em África, esta sangria é resultado do autêntico saco de gatos em que se encontra o continente negro e o Médio Oriente. #História #Política Internacional