Muito se opina ainda sobre o Acordo Ortográfico que alguns chamam (e bem) de desacordo, mas nada se faz para que seja corrigido. A verdade é que já não podemos voltar atrás; remediá-lo é, porém, sempre possível. Eu escrevo à antiga e à contemporânea, conforme me é solicitado, porque sei distinguir uma e outra grafia com ou sem revisores automáticos que, muitas vezes, induzem em erro também. Nada como um bom dicionário para folhear e confirmar o que a maioria deixa passar por desconhecimento ou estranheza (nem sequer ignorância). Demora mais tempo a consultar, mas é eficaz.

O que mais me incomoda neste pseudo acordo que só os portugueses utilizam (se obrigados) são os erros não revistos, como sejam, algumas palavras que carecem de acentos, não se leem bem e pronunciam mal: o 'pêlo do gato' que passa a 'pelo do gato', o 'pára de correr' que passa a 'para de correr' e outras formas que não se entendem sequer numa primeira leitura.

Publicidade
Publicidade

Entre estas tantas, a querida consoante presente no 'facto', que me recuso a escrever 'fato' por mais me apetecer vestir. Se bem que do conhecimento e indignação gerais, reforço-o porque tenho de pensar duas vezes quando leio, estas palavras, numa qualquer legenda que passa no ecrã da televisão.

Na qualidade de investigadora de Arte e Património do século XIX (e até 1910), constatei ao ler inúmeras obras literárias de época que pré-existem várias grafias antes da primeira iniciativa de normalização e simplificação da escrita da Língua Portuguesa em 1911. Se alguns autores se mantinham agarrados à dita grafia antiga, outros já ousavam uma escrita que não constava no dicionário. Conclusão: valia tudo como hoje e, no caso, ninguém se incomodava. A Língua ganhava contornos e mais poesia porque se lia bem apesar dos 'ph' (ou já o 'f'), do duplo 'l' (em vez de um).

Publicidade

Hoje, os nossos governantes, que tanto têm feito a favor de Portugal e dos portugueses, deram sem perceber um valente pontapé na gramática que nos obriga a todos à adoção de uma grafia com erros (começando, claro, e com alguma inteligência, pelo ensino nas escolas). Sem opção. Cabe ao bom senso pedir, pelo menos, a revisão do que está mal pensado (e, se calhar, feito à pressa). Ai que o socorro demora!

Mas, o pior que eu encontro neste acordo (ou desacordo), é a aniquilação de um período histórico relevante. Se antes das invasões francesas, estávamos mais próximos da cultura francesa, e enumerávamos as estações do ano, meses, etc., com letra minúscula, com a revolta e despeito que estas ocasionaram, passamos a estar mais perto de quem nos deu uma mãozinha interessada ou desinteresseira, os ingleses, e assim surgiu a letra maiúscula nas ditas palavras.

Os brasileiros ficaram, por isso, sempre mais perto dos franceses e até continuam a usar o "omnibus", como nós escrevíamos e dizíamos ainda em finais do século XIX (entre outros termos que adoram pela sua origem francesa, e nem imaginam que lhes chegaram via Portugal).

Publicidade

Ora isto é #História, meus senhores, e hoje voltamos atrás. Porque diabo? Pergunto. Mas também eu me rendo neste espaço "Blasting News" onde vou escrevendo, com alguma independência, desde que os jornalistas e os professores foram crucificados no País - o que coincidiu, mais ou menos, com a crucificação da Língua. A memória incomoda muita gente e mais o saber. (Nem a mim vale de muito.) Com acordo ou desacordo, vou detetando as gralhas, estupefata (melhor: estupefacta, também possível), e porque vamos escrevendo com três grafias (nas duas versões do antes e depois em Portugal e na versão brasileira), bem como à nossa maneira. Quem sabe, sabe. Quem não sabe, inventa. Desculpem o desabafo, mas o revisor inibe. #Educação #Curiosidades