O golpe militar de 25 de Abril de 1974 foi liderado por um movimento de capitães, movidos inicialmente por considerações corporativas, e que adoptaram um programa de democratização. As imagens que circularam pelo mundo foram as de um golpe sem derramamento de sangue. A imagem dos cravos nas G3 acabou por dar o nome ao golpe. No estrangeiro, mais até que em Portugal, ela é conhecida por esse nome: "Carnation Revolution", em inglês, e "Révolution des Oueillets", em francês. O dr. Cavaco presta um mau serviço ao país, ao desvalorizar este símbolo.

Data histórica, sem influência na actualidade 

Passadas 4 décadas, é cada vez mais óbvio que as consequências gerais do 25 de Abril e do período de turbulência que se lhe seguiu pouca influência tiveram naquelas que são as questões mais prementes do Portugal actual. A Espanha e a Grécia tiveram transições mais suaves das suas ditaduras para a democracia, e ainda assim enfrentam exactamente os mesmos problemas. Os desafios que Portugal tem pela frente derivam da sua opção por uma moeda única europeia, com as respectivas vantagens e desvantagens, e pelas características estruturais (envelhecimento da população, crescimento industrial da Ásia no final do século XX, etc.) igualmente semelhantes às de outros países da Europa do Sul. Aliás, bastaria olhar para o desenvolvimento económico e social do país nos anos 80 e 90 para compreender que esta questão em particular vai além do 25 de Abril. 

O 25 de Abril enquanto símbolo 

Nesta óptica, o 25 de Abril deve ser comemorado, cada vez mais, enquanto sinónimo de liberdade e democracia, e não enquanto factor determinante para a situação actual do país. Foram várias as forças políticas que condicionaram os dois anos seguintes. Contudo, no final, o programa do Movimento das Forças Armadas (MFA) concretizou-se, com a adopção de um regime democrático. As condições macroeconómicas e a qualidade que a democracia de hoje tem, ou pode vir a ter, nada têm a ver com a situação de há 4 décadas. 

O erro do dr. Cavaco

#História
Neste sentido, a opção habitual do dr. Cavaco de não usar o cravo nas comemorações do 25 de Abril é lamentável. Flores a sair de espingardas são uma imagem fortíssima, que Portugal deveria mesmo projectar no mundo como orgulho nacional, como a revolução pacifista que efectivamente foi. O cravo deveria ser o símbolo de um país que queria paz e liberdade, e não o símbolo de uma determinada área ou quadrante político.


Ao rejeitar o cravo, o dr. Cavaco aceita que esse símbolo seja mesmo só da esquerda. Seria preferível que, usando a flor na lapela, Cavaco fosse acusado pela esquerda de se apropriar de um símbolo que não é seu. Mas estaria a cumprir o papel para o qual foi eleito, de ser o presidente de todos os portugueses, tomando uma posição por aquilo que o 25 de Abril deve representar.