A lei do tabaco está mais uma vez a mudar. Oito anos depois do início da proibição aproxima-se agora a fase da consolidação: será proibido fumar em todos os locais fechados, serão proibidos cigarros de mentol e haverá um espaço na legislação para os cigarros electrónicos. Estas são as boas notícias. No entanto, no meu prisma, há uma notícia que me faz debruçar o pensamento com afinco: a notícia das imagens chocantes que serão impressas nos maços em substituição das mensagens de texto. Assim, o típico "Fumar mata" será substituído por um par de pulmões em apodrecimento, o também já afamado "Consulte o seu médico ou farmacêutico (...)" será trocado por uma boca cancerígena, e por aí em diante.

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A minha preocupação é estética, acima de tudo. Aborrece-me ter de andar com essas fotografias no bolso do casaco, ainda para mais quando nem conheço os donos de tão esfumaçadas partes do corpo. Torna-se feio, e fumar é tudo menos feio. Os fumadores sabem que fumar mata, era suficiente que aparecesse escrito nos maços. O surgimento destas efígies extremamente explícitas vem dar à luz, mais uma vez, a ideia de que uma imagem vale mais que mil palavras, de que a linguagem verbal é acessória e, posto isto, acabamos por ter no odiado tabaco um microcosmos da existência humana. Leia-se parvoíce.

Porquê todo este hype (se me permitem) à volta da saúde das pessoas? O exercício é recorrente nos tempos que correm, para bem da saúde e da imagem. O corpo é tratado para reforçar a semiótica do existir, para que se afaste dos retratos que vamos ver nos maços.

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Mas será que se transmite aquilo que realmente se quer? Não seria melhor usar as palavras? Substituir a corrida diária por uma conversa de esplanada? A troca apalavrada de fumos, em direcção ao cinzeiro da consciência? Sim, daquelas trocas de palavras que emanam tabaco e cerveja, mas que também emanam procriação ideológica de parte a parte, que tanto nos faz falta nos tempos que correm. Exactamente, os tempos que correm. Os tempos que, se fumadores, não conseguiriam correr tanto.