O caça multifunções Rafale, produzido pela francesa Dassault, sofreu graves revezes no mercado de exportação desde que foi apresentado ao serviço em França, no ano de 2001. Apesar das grandes expectativas, sobretudo tendo em conta os sucessos da série Mirage durante a Guerra Fria, o primeiro contrato oficializado apenas surgiu no início deste ano, no Egito. Mas antes disso, a Índia tinha feito um concurso, designado MMRCA, com vista à aquisição de um novo caça médio, avaliado em mais de 12 mil milhões de euros, e que supostamente iria levar à incorporação de 126 aeronaves na Força Aérea Indiana, sendo a maioria delas produzida no país. Em 2012 o Rafale foi escolhido, mas desde então a confirmação do contrato vem-se arrastando.

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A semana passada o governo indiano finalmente concordou com a entrega de 36 aeronaves fabricadas na França, sendo o MMRCA declarado "morto."

Apesar de a chegada a uma decisão, limitada como seja, poder significar o fim de um processo de negociação que foi por demais longo, a realidade é que nos detalhes desta história é possível depreender algumas realidades que não parecerão evidentes de início. Não há dúvidas de que a Índia, uma nação com 1,3 mil milhões de habitantes, é uma das grandes potências industriais do planeta. Estimativas previam que economia superasse a dos EUA a meio do presente século, e poderá, inclusive, apresentar um crescimento maior do que o da China, que tem vindo a declinar, já no próximo ano.

Existem, contudo, problemas estruturais graves, que requerem atenção.

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Da perspetiva da defesa, as forças armadas indianas utilizavam uma variedade exacerbada de equipamento, que traz consigo uma pesada pegada logística. Conquanto um dos motivos de tal realidade se prende com a necessidade de não se criar dependência de um só fornecedor, a verdade é que a realidade económica da mesma não é ignorada. Contudo, a paz armada com a união sino-paquistanesa implica a necessidade de um vasto exército para sustentar a mesma.

Assim sendo, a Índia tem tentado criara a sua própria indústria militar, especialmente no que diz respeito ao equipamento avançado, como aeronaves e carros de combate. Tais projetos têm sofrido de atrasos flagrantes. O HAL Tejas, um avião de pequeno porte que deveria substituir o MiG-21 que forma a base da defesa aérea indiana e que já é perigoso de pilotar, ainda não está operacional, tendo levado à aquisição de Rafales para suprir as necessidades. Os caças franceses, contudo, vêm em números muito pequenos, e serão ainda precisas centenas de aeronaves nos próximos anos.

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Assim sendo, porque é que os planos para a produção do Rafale na Índia parecem ter caído totalmente por terra? A HAL (Hindustan Aeronautics Limited), a empresa aeronáutica indiana, avançou ao longo dos anos com aeronaves de treino simples para a Força Aérea. No entanto, tais aeronaves apresentaram graves problemas de qualidade, e até se revelaram perigosas para os pilotos, quase tanto como os velhos MiGs. Aparentemente, a Dassault não desejava partilhar das responsabilidades trazidas pela produção local de aeronaves. Existe uma problema de qualidade na produção industrial indiana, que se torna especialmente evidente quando se lida com equipamento avançado, e que requer uma taxa de segurança elevada.

No entanto, falta de controlo de qualidade é apenas um sintoma de problemas mais profundos, que exploraremos na próxima parte. #Política Internacional