No rescaldo desta crescente falta de confiança política, o novo governo de Nova Deli prometeu atacar diretamente os problemas estruturais do país, o que fez com que vários comunicadores revelassem um grande otimismo para com o futuro do país. Outros analistas, contudo, providenciam uma imagem mais complexa da fenomenologia financeira indiana. Nas partes anteriores referimos como a falta de controlo de qualidade eficiente afetam a indústria aeronáutica indiana. Deve-se ainda referir o caso da produção sob licença de aeronaves estrangeiras, nomeadamente o Sukhoi Su-30MKI, que é caracterizada por diversos problemas de fiabilidade. Alguns podem, de facto, ser apontados ao fabricante original, na Rússia, mas muitos envolvem equipamento que foi adicionado pela HAL.

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São questões estruturais que surgem no encalço de um outro muito maior, e que é transversal aos desafios de todos os países do BRICS, mas também do sistema financeiro moderno como o conhecemos. Falo, pois claro, da corrupção. Mais de 60% da população indiana refere ter tido contacto com alguma forma de corrupção. Este é um problema que permeia as tomadas de decisão, tanto a nível local, como do governo central, e que influencia as políticas empresariais. Conquanto a corrupção em si é esperada, os níveis em questão estão a ter um efeito extremamente danoso no crescimento esperado para a economia indiana.

A situação é de tal modo grave que ao longo dos últimos anos os governos se viram obrigados a levar a cabo uma série de campanhas imaginativas para desencorajar pedidos e ofertas de subornos, como a infame nota de zero rupias, com vista a ser usada pelo cidadão comum como modo de se defender da corrupção das autoridades (mediante os efeitos psicológicos dos avisos escritos nas notas).

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Ao mesmo tempo, a luta pela erradicação deste flagelo permitiu a ascensão de diversos novos personagens da arena política que, no entanto, pouco conseguiram, sendo eles mesmos, por desígnio ou acidente, arrastados pelo metafórico lodo do caos político indiano.

A questão da corrupção cruza-se com uma diminuição considerável do consumo interno nos últimos anos, em nada ajudado pelo fraco aumento dos rendimentos no mesmo período. A inflação também permanece baixa, e as taxas de juros nacionais foram já diminuídas duas vezes em 2015, numa tentativa de manter os empresários interessados. No entanto, a produção industrial permanece mais baixa do que o esperado. E não ajuda que a metodologia de cálculo do Produto Interno Bruto tenha também sido alterada este ano, resultando numa possível inflação dos números do crescimento económico, que se deverá manter até as perspetivas da mesma se ajustarem.

Da sua parte, a Dassault sempre revelou desconfiança para com as capacidades do complexo industrial-militar-político indiano de conseguir replicar as capacidades necessárias para produzir o Rafale.

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Isto porque parte do defunto programa MMRCA implicava a produção de pelo menos uma centena de unidades do caça francês na Índia, pela mencionada construtora aeronáutica HAL.

Apesar de o futuro ser por demais incerto e de os planos reais do governo indiano permanecerem ainda dentro do mesmo, a verdade é que a problemática do Rafale permite ver por detrás das rachaduras do complexo industrial e económico indiano. O país tem o potencial de ser uma das grandes potências económicas, mas, como sucede com a China, a sua capacidade de o realizar está ainda dependente da resolução de graves problemas internos. #Política Internacional