Pelos vistos, o conceito de liberdade ainda confunde muita gente, ou então é só incomodativo para quem têm a incumbência de governar um país e preservar o Estado de Direito. A dois dias da comemoração do 41º aniversário da Revolução dos Cravos, descrita por Samuel Huntington como o momento impulsionador da terceira vaga de democratização mundial, os três maiores partidos políticos portugueses (PS, PSD e CDS-PP) apresentaram um diploma que prevê o envio prévio por parte dos órgãos de comunicação social dos seus planos de ação para a cobertura de qualquer período eleitoral. Anteriormente ao período de pré-campanha, os projetos dos meios de comunicação terão de ser aprovados por uma comissão mista formada pelo presidente e um vogal da Comissão Nacional de Eleições (CNE) e também um membro da Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC) (de acordo com a Rádio Renascença).

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Em caso de incumprimento, os jornais/televisões/rádios, incorrem numa coima que varia entre os 5.000€ e os 50.000€.

Ora bem, este tipo de atitudes em vésperas da comemoração do golpe militar que depôs o Estado Novo, em 25 de Abril de 1974, e colocou fim à ditadura que já vigorava em Portugal desde 1933, tem que ser entendida como algo não só anticonstitucional, mas também como uma falta de respeito pela liberdade em todas as suas vertentes e pelo próprio povo português, demonstrando a abjeção de algumas pessoas que se encontram no cargo de deputados parlamentares.

Segundo o El País, "Portugal celebra os 40 anos de liberdade de expressão, mas parece que não cumprirá os 41" devido ao acordo entre elementos representantes dos partidos do #Governo e dos socialistas que concordaram em "censurar a imprensa".

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Pois bem, os espanhóis resumem bastante claramente a tentativa de controlar a opinião pública, o debate livre e de reduzir as hipóteses dos pequenos partidos de alcançarem uma projeção maior a nível nacional.

Invocar o fim do salazarismo com um projeto totalitário destes demonstra ao povo português que os ideais que conduziram o MFA à Revolução dos Cravos necessitam de permanecer mais vivos do que nunca, numa altura em que o adormecimento interventivo e o alheamento político da população permite devaneios controladores e autoritários deste género, desonrando o valor maior da democracia, atentando contra a Constituição, desconsiderando a memória de todos os que combateram por um país livre em todos os seus aspetos, e demonstrando o medo que a liberdade provoca em quem manda.

Os jornalistas e comunicadores deste país não devem boicotar a campanha; pelo contrário têm de prosseguir com a publicação de notícias/artigos/opiniões que não olhem a cores políticas ou tendências corporativas e assim resistir à tentativa de cercear a liberdade de imprensa. Assumir os riscos da autoria é não ser submisso às lideranças e demonstrar que os valores democráticos chegaram há 4 décadas, comemoraram os 40 anos de existência e, ao contrário do que se pretende, comemorarão mais 40.