O anúncio, ainda que não oficial, da candidatura presidencial de Sampaio da Nóvoa mostra que o timing eleitoral é demasiado importante para ser deixado ao acaso e não apenas como forma de marcação de terreno face a possíveis candidatos.

Por isso o pré-anúncio da campanha na altura da Páscoa. Um simbolismo evidente com a mensagem que o candidato quer fazer passar junto do eleitorado maioritariamente socialista, sem esquecer as várias centenas de milhar de votos que dançam ao sabor da conjuntura política. Afinal, depois de dois mandatos de um Presidente acusado de pactuar com a política de austeridade levada a cabo pelo governo, nada melhor do que alimentar a esperança de que a mudança necessária é exequível e tem um rosto.

Trata-se de trazer para o plano político a verdade bíblica porque, após a crucificação de sexta-feira, teve lugar a ressurreição de domingo.

Lá para o fim do mês, passadas as cerimónias comemorativas do 25 de Abril, será tempo do anúncio oficial da candidatura. Uma vez mais o simbolismo a impor-se. Afinal, para que a festa faça sentido, há que recuperar o espírito inicial. Importa cumprir o cravo de Abril. Algo só possível, obviamente, a posteriori.

Porém, em contraciclo com a conotação positiva dos simbolismos apresentados, há algumas nuvens que parecem ensombrar a candidatura do ex-reitor e que não decorrem de pequenas alterações de um apelido propício a essas distorções apenas com a simples troca de uma letra.

Não, o apelido não é para aqui chamado. O problema decorre noutra dimensão e prende-se com duas personagens: Mário Soares e Ramalho Eanes.

O primeiro, por fazer jus ao ordinal ao colocar-se no lugar inicial como apoiante do novo candidato a Belém. O segundo, por, ainda que sem responsabilidade própria, ter visto Sampaio da Nóvoa elevá-lo a modelo da sua futura atuação presidencial.

Sendo certo que 40 anos é muito tempo na vida do homem, o mesmo não se verifica na História de um povo e, por isso, a memória coletiva regista a difícil coabitação de Eanes Presidente com Soares, enquanto Primeiro-Ministro. Os três governos de iniciativa presidencial e a revisão constitucional de 1982, com a consequente diminuição dos poderes presidenciais, não deixam margem para a mínima dúvida sobre um relacionamento muito difícil.

Como escrevi em Os Políticos e a Crise: de Salazar a Passos Coelho, enquanto Soares negava a fome em Setúbal denunciada pelo bispo Dom Manuel Martins, Eanes insistia em que não havia "espaço para mais erros", frase que não escondia o desencanto com a governação soarista.

Assim, não vai ser fácil a Sampaio da Nóvoa, pese a sua experiência académica, resolver o problema que decorre do facto de ter como apoiante número um e como modelo presidencial as duas personalidades anteriormente referidas.

Como o povo proverbia, a água e o azeite não se misturam por mais voltas que dê a colher.

Depois de um Neto prematuro, esta é uma nova pedra no caminho de Costa. #Eleições #Eleições Presidenciais