Aquando da elaboração do Top 10 dos álbuns clássicos de rock de 1970, de forma quase criminosa, o quarto álbum dos Deep Purple ficou de fora. De maneira a corrigir esse grave lapso, nada mais justo que dedicar um artigo inteiro a esse álbum que deu um novo alento à carreira da banda britânica e que também mudou a face da #Música rock e estabeleceu os padrões para o hard rock que se seguiriam nos anos seguintes. Para se ter noção dessa mudança e desse impacto, é importante saber em que ponto a banda estava antes do lançamento deste trabalho clássico em 1970.

Com três álbuns às costas, a banda ainda não tinha conseguido ter o desejado impacto comercial, exceptuando pelo single Hush, lançado em 1968, que lhes permitiu alguma visibilidade. Apostados em mudar isso, o núcleo duro da banda (o guitarrista Ritchie Blackmore, o baterista Ian Paice e o teclista Jon Lord) resolve proceder a uma mudança de vocalista e baixista (Rod Evans e Nick Simper, respectivamente), trazendo para o seu lugar Ian Gillan e Roger Glover. Para primeiro teste, uma verdadeira prova de fogo, o álbum ao vivo "Concert For Group And Orchestra", onde o rock da banda funde-se com a música clássica, uma fusão vanguardista que viria a tornar-se moda trinta anos mais tarde. Com o sucesso do lançamento, havia a sensação no ar de que este alinhamento viria a fazer estragos maiores nas tabelas de vendas.

E essa sensação materializou-se com "In Rock", um poderoso álbum de proto hard rock que marcou toda uma geração de fãs e músicos. Desde o som de teclados bem agressivo do saudoso Jon Lord (que, ao decidir ligar o seu órgão Hammond a um amplificador de guitarra, criou uma barreira entre o passado da banda e todos os outros que tinham no órgão uma fonte de melodia e não de peso) até ao baixo pulsante de Roger Glover, sem esquecer a bateria frenética de Ian Paice (um dos grandes bateristas da história da música pesada), a guitarra inventiva de Ritchie Blackmore, e sobretudo a voz poderosa de Ian Gillan, que se estabeleceu como o exemplo da voz poderosa que o hard rock deve ter, uma força em bruto quando comparada com outros mestres como Robert Plant, mais melódica.

Todas estas qualidades evidenciaram-se graças a sete temas que ainda são hoje essenciais quando o assunto é hard rock. Apesar da qualidade de todos eles, é impossível não destacar duas, evidenciando duas vertentes diferentes do som da banda. Primeiro "Child In Time", um épico de dez minutos que mostra tanto a apetência da banda para as melodias, assim como a experimentação, e revela a química que a banda tinha tendo como maestro Ritchie Blackmore, que lhes permitia fazer longas jams. Depois "Speed King", um tema de hard rock cru e pulsante, o mais próximo do heavy metal que o mundo tinha ouvido até esta altura, ainda mais que "Communication Breakdown" ou "Immigrant Song" dos Led Zeppelin.

"In Rock" revela ao mundo uma banda renascida, apostada em desbravar novos territórios musicais, com uma fusão muito própria entre as melodias próprias da música clássica, o experimentalismo do rock psicadélico e as improvisações próprias do jazz mais aventureiro. Ou seja, um álbum clássico. A partir daqui, e juntando-se os Led Zeppelin e os Black Sabbath, estavam lançadas as pedras basilares do hard rock.