Francisco Castro Rodrigues (1920-2015), um dos grandes nomes da arquitetura moderna portuguesa, é reconhecido por construir a imagem do Lobito (Angola) como uma cidade moderna e aí deixar o génio, hoje praticamente ignorado.

Acabou por falecer em Lisboa, no passado mês de abril, aos 94 anos, e sem retornar à terra que amou. Afinal, esta última foi repensada por si em termos urbanísticos e arquitectónicos, sendo que, depois de se formar em Arquitetura pela Escola de Belas-Artes de Lisboa, se estreou em 1953 como diretor dos Serviços de Urbanização e Arquitetura na Câmara Municipal do Lobito. Mesmo depois da independência, trabalhou para a República de Angola colaborando na reconstrução do país e na instituição do curso de Arquitetura em Angola.

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Como obras emblemáticas, desenhou a Catedral do Sumbe (1966), a Aerogare do Lobito (1964) e o bairro do Alto do Liro (1970-1973) de 7500 habitações. No Lobito deixou equipamentos de destaque, como o Cine-Esplanada Flamingo (1963), famoso pela sua cobertura de betão suspensa, o Liceu do Lobito (1966) e o bloco de habitação da Universal (1961).

Há mesmo quem diga que o Lobito é um pouco (ou muito) de Castro Rodrigues. Mas, hoje, o Lobito esqueceu o arquiteto que levou o rigor das linhas modernas à cidade portuária emergida em terreno pantanoso. Aliás, por existirem preocupações maiores, a maioria dos habitantes do Lobito de hoje desconhece as funções destas peças de arquitetura. Desconhecendo, de igual forma, o arquiteto português natural de Lisboa que viveu em Angola 34 anos de trabalho, tendo projetado quase todas as suas obras fora de Luanda.

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E eu, que escrevo estas linhas, confirmo que ignoram o arquiteto e as obras porque, em 2012, visitei a cidade e os seus habitantes nem faziam ideia de que o Flamingo tinha sido um cinema ao ar livre. O que seria? Basicamente, perdura a estrutura em betão da pala do edifício que outrora se chamou Cine-Esplanada Flamingo por ser a céu aberto e aí se assistir a um voo sem igual de fim de tarde que cobria com asas cor de rosa o manto celeste.

Já o liceu do Bairro Académico, no Compão, teve melhor sorte. Não se descaraterizou, apesar de estar uma lástima se comparado àquele por tantos deixado em 1975. Quase por milagre, estes edifícios sobreviveram à guerra de dezenas de anos e continuam de pé. Já não é mau, apesar de muitos estarem agora a ser destruídos. O pior é dizerem-se obras "brasileiras" quando são assinadas por portugueses influenciados por tendências internacionalizadas com origens diversas como na Bauhaus (Alemanha), em Le Corbusier (Suíça e França) e Frank Lloyd Wright (EUA) ou nos construtivistas russos alguns ligados à escola Vuthemas, entre muitos outros.

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Mudaram-se os tempos e as obras não deixaram de ser modernas, mas sim com a marca Estado Novo. Como caíram em esquecimento os tantos nomes de arquitetos que se empenharam na construção de uma Angola moderna, sendo até alguns discípulos de modernistas maiores como Le Corbusier.

Relembro assim nomes como Vasco Vieira da Costa e Simões de Carvalho (discípulos de Le Corbusier), Pinto da Cunha, António Veloso, Keil do Amaral, Francisco Silva Dias, Nuno Teutónio Pereira, Arménio Losa e tantos outros arquitetos e urbanistas que, em Angola, particularmente em Luanda, encontraram as condições para a permanente troca de influências se fazer sentir na malha arquitetónica e urbanística.

Não por acaso Francisco Castro Rodrigues é reconhecido por ter traduzido para a Língua Portuguesa, juntamente com a mulher, a atriz Lurdes Castro Rodrigues, a versão integral da Carta de Atenas, manifesto saído do IV Congresso Internacional de Arquitectura Moderna e redigido por Le Corbusier que ajuda a definir o conceito do "urbanismo moderno".

E, sem mais, aqui deixo o pedido para que se dignifique o arquiteto Castro Rodrigues (e os demais) e se classifique devidamente o património por quem sabe. #História #Personalidades