Quando Fary começou a marcar golos em Portugal, no União de Montemor, Jorge Jesus treinava o Felgueiras, Marco Silva estava na sua primeira época de sénior, no Belenenses, Lopetegui era guarda-redes do Barcelona. Estávamos em 1996 e o seu actual treinador, Petit, rodava no Esposende, saído dos juniores do Boavista. Em 2003 sagra-se o melhor marcador da liga portuguesa e, por essa altura, o Boavista fazia figura na europa do #Futebol, chegando às meias-finais da Taça UEFA. Nesse mesmo ano, vejamos o que faziam alguns dos seus actuais colegas: Mika defendia as primeiras bolas nos sub-13 do Pombal, Afonso Figueiredo ainda nem tinha idade para jogar à bola, tal como José Manuel, Tengarrinha brincava nos sub-15 do Benfica e Idris só imaginava ser jogador profissional.

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Quando chegou ao Boavista, Samu tinha 7 anos, Philipe Sampaio e Wei tinham 8.

Fary Faye é uma lenda. Nasceu na véspera de Natal de 1974, em Dakar, no Senegal. Em jeito de brincadeira costuma dizer que quando se foi registar ia ele a conduzir, pelo que a sua idade pode ser um grande mistério. Tal como milhares de miúdos africanos, foi nas ruas, descalço, com velhas bolas, que deu início ao sonho de ser jogador de futebol. África, por essa altura, inícios de 80, era algo muito distante e desconhecido para qualquer ocidental. Os tempos eram outros, ainda mais difíceis que os actuais.

Mas Fary sabia o que queria. Um dia iria jogar futebol na Europa, um destino que a grande maioria dos senegaleses desconhecia por completo. Os pais, para quem esse sonho era uma excentricidade, queriam que ele estudasse, que arranjasse um emprego a sério.

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Mas Fary sabia o que queria. Aos 17 anos começa a sua carreira no Diaraf, clube local. Por lá ficou cinco anos, aprendeu as primeiras coisas de bola e no final sentiu-se com coragem para atravessar o oceano e procurar a sua sorte em Portugal.

Ingressou no União de Montemor, a militar na terceira divisão e, em duas épocas, marcou 40 golos. O Beira-Mar, na altura entre os grandes, não perdeu tempo e contratou-o. Em 5 anos em Aveiro marca 60 golos e sagra-se rei dos marcadores. É aí que começa a paixão pelo Boavista, onde os números, conseguidos ao longo de nove épocas (intervaladas por um regresso a Aveiro e a uma experiência no Aves) não contam. Nenhum boavisteiro quer saber quantos golos marcou Fary de xadrez vestido. Para qualquer adepto do Boavista o que conta é o homem, a lealdade e o amor que sente pelo clube. A simpatia e educação. E o sorriso. O sorriso fácil que Fary oferece a qualquer pessoa.

Todos percebem a importância que este senegalês tem no Boavista. No plantel, onde é, sem comparação, o mais respeitado.

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É um ídolo para os seus colegas, que bebem de toda a sua experiência. Mesmo lesionado durante mais de meio ano, nunca esteve longe da equipa. Em todos os jogos sentou-se no banco, como funcionário. Fary é importante demais para ficar longe. Para os adeptos, Fary é único. Personificou a esperança de ver o Boavista de regresso à primeira liga. Esteve presente nos piores momentos e nunca desistiu. Tinha o sonho de voltar a jogar pelo Boavista no escalão maior. Já o fez. Aos 40 anos, seria fácil abandonar a carreira, face a uma grave lesão. Ninguém levaria a mal. Mas Fary não o fez, porque ainda lhe resta o derradeiro sonho. Marcar mais um golo, vestido de xadrez, na primeira divisão. Ele está de volta e, com a ajuda de milhares de boavisteiros, arrisca-se a ficar na história do futebol português.