Eu fico a pensar nos tempos da minha juventude, no tal meu 25 de abril de 1974, onde tudo parecia novo e encaminhar para o progresso. Ao longo destas décadas todas, andamos para a frente e para trás, não houve consistência sustentada nesta evolução da nossa democracia. Quando deveria estar presente o mais alto interesse da condição humana, as ideologias partidárias tomaram o pulso à população. O povo português continua a sofrer em democracia, se é que podemos classificar o ...momento atual de democracia. A mim parece-me mais um regime autocrático Os nossos políticos continuam a mentir em campanha eleitoral, pois têm consciência que o que prometem não vão poder cumprir. É a obsessão do poder que os leva a prometer aquilo que não conseguirão cumprir.

No “famoso” verão quente de 1975 pude testemunhar batalhas campais entre apoiantes de Sá Carneiro e apoiantes dos partidos de esquerda. Num comício do Partido Popular Democrático em Barcelos, a coisa esteve brava. Em pleno centro da cidade, onde se concentravam algumas sedes das forças políticas de esquerda, houve grandes escaramuças; eram pedras arremessadas, paus por todo o lado, felizmente as armas de fogo não foram usadas. Diziam os militantes da esquerda radical que os reacionários de direita iam tentar assaltar as suas sedes, mas não forammais do que provocações e manifestações pós comício. Claro que as pessoas de esquerda não estavam a gostar daquelas manifestações e entraram em confrontos corporais.



Barcelos naquela altura era intitulada como cidade vermelha, tal era a movimentação das forças de esquerda, apesar de no concelho, com oitenta e nove freguesias, o PPD ganhar as eleições. Tempos conturbados, onde nem sempre a liberdade de expressão era notada.

Um dia um amigo meu disse, em resposta ao título deste meu livro, que o meu 25 de abril de 1974 estava esquecido numa gaveta da Assembleia da República. Teoricamente parecia uma boa resposta, se tivermos em conta a realidade da sociedade portuguesa, mas no meu caso, as coisas são um pouco diferentes. Durante quarenta e um anos, os meus ideais estiveram adormecidos, pela inércia do preconceito social, da minha falta de atitude e coragem de dar passos para um futuro de incertezas, mas sim de convicções fortes.



O processo de vitalização da minha consciência começa agora, após estes anos todos, a ter certa consistência. Certamente não terei tempo de vida para chegar à sua realização total, mas o caminho certo está traçado, e tudo é uma questão de aproveitar as oportunidades que me apresentarem pela frente. Guardo os meus silêncios para fazer a minha revolução tardia. Não peço nada que não seja de meu direito. Há coisas que a sociedade reprovadora e autoritária deve tomar consciência, ninguém tem o direito de julgar ninguém pelos seus infortúnios de vida. A sociedade tem o dever sim, de ajudar a quem a vida lhe foi madrasta. 
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