Observando, dia após dia, o naufrágio lento do navio português em que embarcamos, e a leva de náufragos onde quase todos mergulhamos, só resta fazer um à parte: Ora bolas para os nossos brandos costumes! O #Desemprego é a causa primeira das dificuldades das famílias portuguesas, cada vez mais pobres e obrigadas a emigrar. Que remédio!

Rita Carvalho do DN parece otimista: "(...) nas famílias onde o aumento dos filhos é uma opção ponderada a austeridade impõe-se, e a grave situação económica não se faz sentir". Na ânsia de encontrar respostas, olho para trás para Ramalho Ortigão que afirma em John Bull (1870) que o português "(...) é no mundo moderno um decadente. (…) perdeu a consciência nacional e abdicou politicamente da hegemonia que os seus feitos da Renascença o destinavam (...)".

Mudam-se os tempos e as mentalidades, mas continuamos a navegar e a viver um circo romano: jovens a sofrerem bullying, mulheres e crianças a serem violentadas, perseguidas, mortas, polícias a agredirem inocentes...

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está tudo doido? O sofrimento transtorna-nos, torna-nos menos humanos. Não só desemprego e dívidas, impostos a mais, dinheiro a menos, falta de horizontes, desilusão de não cumprir com as obrigações. Os telejornais e redes sociais acusam e nem assim o panorama nacional melhora e se faz justiça.

Sobre os ânimos elevados, Eça escreve no livro póstumo Cartas familiares e bilhetes de Pariz (1913): "(...) de todos os homens da Revolução nunca dizíamos 'era', mas é, no presente do verbo, porque para nós eles estavam presentes, (...) vivos e presentes em todo o lugar onde houvesse um coração revolucionário (...)".

Eça e os "camaradas" de Coimbra lutavam pelos direitos. E porque nos resignamos, nós, aceitando o "era" em vez do "é"? Obrigados a embarcar num mundo descolorido, tão diferente daquele dos viajantes e das viagens, esperamos uma oportunidade de emprego depois dos 35.

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Ao que chegámos!

Teixeira de Vasconcellos exprime o desterro, na obra póstuma Cartas de Paris (1908): "(…) E não há de a gente ter saudades do sol da sua terra? Que me importa a mim a grande Opera, e os Italianos, os Campos Elyseos, e os Boulevards, o bosque de Bolonha e o jardim de aclimatação, e o Louvre e o Hotel de Ville e todas as outras bellezas d'esta cidade (...)".

Hoje temos saudades do sol que se foi e nem sequer somos os mesmos 'decadentes' de Ortigão. Navegamos sem maré, longe de ser marinheiros. Dizia-me uma idosa que, por causa da invalidez, paga 165€ ao INEM, ou Bombeiros, para descer e subir ao 3.º andar onde vive. Tentou ser sócia dos bombeiros da sua zona de residência e não a aceitaram. Outros queixam-se de receber a 15 de cada mês e, por vezes, a 20, continuam sem ordenado: "O senhorio persegue-me, estou sem dinheiro para o gasóleo, ou autocarro, não posso trabalhar". Afinal, o Zé Povinho é quem paga!

Em Angola certas empresas chegam a propor aos funcionários que, à falta de pagamento, dividam o ordenado do vizinho e no mês seguinte se faça a troca.

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O que inventam os angolanos para remediarem injustiças e, tal como nós, resignam-se!

Em Portugal, vivemos já algo semelhante. Com a falta de emprego, salários em atraso, endividados, obrigados a emigrar, sem segurança nem paz de espírito... porque não nos revoltamos, portugueses? Porque nos acobardamos?! Contestavam os antigos: "Baixar as calcinhas, nunca!" E o que temos feito? Nós, os portugueses, com o costume de sofrer em silêncio, ficamos sempre a ver a navios (quem pode e manda, carrega-nos nos calos). #Governo