No passado domingo, dia 5, por uma maioria de 61%, o povo grego disse claramente 'não' à Europa. As reacções foram de incredulidade e de receio, onde a questão que mais se coloca é: "E agora?". Uma questão que muitos arriscam em cenários de crise, uns mais apocalípticos que outros. Por um lado, a previsão da Grécia a afundar-se, a voltar ao dracma, moeda extinta aquando da entrada no euro. Por outro, a previsão que tenha sido criado um buraco negro que sugue a si todos os restantes países da Europa. Os dois cenários não são incompatíveis e podem acontecer simultaneamente. Longe vão os dias em que os países viviam isolados e que se podiam dar ao luxo de dizer "não é assunto que me diga respeito". A nossa aldeia global está cada vez mais pequena.

Para já, as primeira reacções que pudemos apreciar foi o descalabro nas bolsas europeias, onde tanto acções, como o valor do barril do petróleo, assim como o próprio euro caíram a pique. A bolsa portuguesa acabou por ser uma das mais penalizadas, com o PSI-20 a cair 3.81%, a par da italiana que perdeu cerca de 4%. Outra das consequências foi a subida dos juros no mercado da dívida, que em Portugal, na linha de 10 anos, fixou-se num total de 3.174%, ou seja 23.2 pontos acima da da última sessão. Também a taxa Euribor a três meses regressou a números mínimos históricos.

O primeiro ministro grego comprometeu-se a apresentar novas propostas na cimeira de dia 07/07, mas o porta-voz da chanceler alemã Angela Merkel já adiantou que não há condições para ajudar a Grécia devido ao resultado do referendo. Apesar da posição intransigente do governo alemão, que praticamente controla o Banco Central Europeu, se as negociações não forem retomadas, está cada vez mais evidente a ausência do espírito de solidariedade que supostamente está na base da União Europeia.

Embora o nosso primeiro ministro, Passos Coelho, insista que o resultado do referendo não coloca em causa o euro, a verdade é que não só o euro foi colocado em causa como o próprio sonho europeu. Um sonho onde todos os países são iguais e onde todos juntos podem prosperar, unidos para serem mais fortes. Mas aquilo que assistimos não foi bem este cenário idílico. O nosso sector das pescas e da agricultura foi arrasado e fomos obrigados a importar aquilo que antes produzíamos. Pelos alunos bem comportados da Europa que venderam ilusões, que os povos de países como Itália, Grécia, Irlanda, Espanha e Portugal compraram.

Sendo que a saída do euro é tão desejável para a Europa como para a Grécia, era necessário este 'não' na mão do povo grego, para que os senhores da Europa se apercebessem que sem europeus, não há Europa. Não tenhamos ilusões, a Grécia precisa da Europa, mas o que é preciso não esquecer e ignorar é que a Europa precisa da Grécia. Mas pelo menos, e ao contrário dos restantes países da Europa, o povo tem algo a dizer e o que disse foi uma mensagem clara para todos os tecnocratas que controlam as vidas dos europeus como se fosse mercadoria sua para comprar, valorizar e vender.

Dificilmente os restantes países terão a coragem (ou serão colocados numa situação semelhante) da Grécia, no entanto, se a Grécia cair, o mais natural é que o resto da Europa seja contagiada pela descrença por um sistema político-económico que se revelou falido. Se os credores não acreditam na capacidade da Grécia (assim como não acreditaram na de Portugal e Irlanda) de cumprir as suas dívidas, como é que vão acreditar numa União Europeia onde a Alemanha impõe à força a sua lei? #Política Internacional