Ao longo dos meses em que escrevi para este espaço tenho defendido que a União Europeia nunca iria abdicar da Grécia. Não obstante as diferenças de opinião e a escala da dívida pública de Atenas, a verdade é que esse pequeno país mediterrânico é, simplesmente, demasiado importante em termos estratégicos. Winston Churchill desejou que se tivesse invadido a Grécia ao invés da Itália na Segunda Guerra Mundial, baseado, em boa medida, nessa noção. Portanto, sempre admiti que não obstante a dificuldade das negociações, no fim Bruxelas e o FMI iriam fazer concessões ao Governo de Tsipras para pura e simplesmente não se perder o ponto de vigia a oeste dos Dardanelos.

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Parece que estava errado.

A situação seria bem diferente se ainda vivêssemos no mundo em que o chamado resgate financeiro se iniciou. O mundo está mais instável agora. Um detalhe que escapou a muitos foi a alteração do Relógio do Juízo Final do Boletim de Cientistas Atómicos para os 3 minutos. Há 30 anos que isso não sucedia e deveu-se, entre outras razões, à modernização dos arsenais nucleares das grandes potências e à crença de algumas delas que podem ganhar uma guerra através do uso limitado de armamento nuclear, ignorando-se o potencial de uma escalada desastrosa. É um cenário que lembra por demais o caminho para a Primeira Guerra Mundial, em que a descrença na possibilidade de uma guerra se misturava com a certeza de que a vitória seria rápida e decisiva. Todos acreditavam nas duas coisas e todos se revelaram errados.

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Neste contexto a situação grega reveste-se de uma importância impossível de ignorar. George Friedman, do grupo de análise política STRATFOR, estudou em profundidade esta realidade. A verdade que transpira é a de que a Grécia (assim como vários outros países) nunca deveria ter sido aceite no #Euro. Os líderes europeus afirmam que desconheciam a extensão da inépcia e corrupção gregas, mas essa realidade já era conhecida entre os analistas políticos. No entanto, a Alemanha precisava de criar um zona exclusiva para explorar a sua crescente produção industrial e houve pressão para aceitar candidaturas que se tornariam problemáticas a longo prazo. A derrocada das economias do Sul da Europa face à pressão financeira, exacerbada pela intervenção da Troika, tornou-se inevitável.

Estas nações enfrentam agora um futuro preocupante. As taxas de desemprego são avassaladoras, chegando aos 26% no caso da Grécia, o que implica não apenas mãos paradas, mas também falta de nascimentos e um efeito de gargalo na economia.

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Cria-se uma semente de instabilidade e radicalização que eventualmente dará azo a uma série de implosões sociais, cuja escala é difícil de prever. É uma semente que já começou a brotar na Grécia. A sociedade está profundamente dividida, e até há quem fale no potencial para uma guerra civil, como é o caso do antigo Secretário Geral para a Investigação grego, Dimitris Deniozos. Em todo o caso, é improvável que o Governo do Syriza sobreviva à votação deste Domingo, qualquer que seja o resultado.

E isto traz-nos ao busílis desta questão. Uma Grécia dentro da Eurozona será um fosso que arrastará o Euro para o fundo com ela. Uma Grécia fora da Eurozona será uma ameaça existencial para a mesma, até porque os inimigos da Europa farão de tudo para capitalizar essa situação.

A falta de tato e de noção geoestratégica de Bruxelas é chocante, e todos iremos pagar por isso, mesmo aqueles que pensam que a crise lhes passará ao lado. Por uma vez... estou assustado. #Política Internacional