A decisão de largar a bomba atómica sobre Hiroshima e Nagasaki é tão controversa hoje como o foi há setenta anos. O Japão ia no quarto ano de guerra com os Estados Unidos da América. O seu domínio no Pacífico era lentamente destruído pelo inimigo. A conquista da ilha de Okinawa em Junho de 1945 era o prelúdio de uma invasão da pátria japonesa que principiaria pela tomada da ilha de Kyushu. Ninguém duvida que a invasão do Japão importaria um custo assombroso em vidas humanas, quer para os invasores, quer para os militares e civis japoneses.

A consumação da destruição material do Japão não era menos certa. Também não há disputas sobre se seria preferível o uso da bomba atómica contra o Japão ou uma incursão militar no seu território que resultaria em muito maior número de mortes e em muito maior devastação.

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A questão que se discute é se o uso da bomba atómica era necessário para induzir o Japão à rendição incondicional e evitar a invasão do arquipélago.

A posição tradicional da diplomacia americana é a de que os bombardeamentos nucleares foram necessários. O chefe do Departamento de Guerra dos Estados Unidos durante a Guerra, Henry L. Stimson, defendeu esse ponto de vista num artigo publicado em 1947 que terminava sentenciando que “não havia outra escolha”. Stimson acreditava que a bomba atómica determinou a rendição do Japão e salvou a vida de inúmeros americanos e japoneses.

No entanto, os representantes do Japão tinham iniciado as primeiras conversações para a negociação da rendição em Maio. A destruição da marinha, a redução da força aérea aos esquadrões kamikaze, os efeitos nefastos para a indústria de guerra e para a economia dos bombardeamentos aéreos e do bloqueio naval convenceram a elite governativa japonesa de que a derrota era inevitável.

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A bomba atómica não determinou a decisão do Japão de procurar a rendição.

Porém, os termos de rendição exigidos pelos Aliados eram estritos. A declaração de Cairo tornou clara a exigência de uma rendição incondicional do Japão. A declaração de Potsdam, divulgada em 26 de Julho de 1945, confirmou esta imposição. Ora, ainda que os dirigentes nipónicos estivessem decididos a pôr um fim à guerra, não havia um consenso entre governantes sobre a aceitação da rendição incondicional. A aceitação de termos de paz tão severos não foi feita antes dos fatídicos dias 6 e 9 de Agosto de 1945.

É provável que o bloqueio naval e o bombardeamento aéreo convencional acabassem por determinar a aceitação da rendição sem condições antes de uma invasão de Kyushu mesmo que as bombas atómicas não tivessem sido usadas. Afinal, três dos seis membros do órgão máximo de governo do Japão à época, entre eles o Primeiro-Ministro Almirante Kantaro Suzuki, haviam manifestado anteriormente o seu apoio à aceitação da declaração de Potsdam.

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O imperador Hirohito também já se pronunciara favoravelmente a esta solução, embora sem impor nenhuma decisão.

Contudo, era do interesse dos Estados Unidos da América obter rapidamente uma rendição incondicional, por causa da possível intervenção soviética em território japonês. A União Soviética declarou guerra ao Japão a 9 de Agosto de 1945 e invadiu a Manchúria. Antes do final do mês de Agosto, os soviéticos ocuparam a ilha de Sakhalina e as ilhas Kuril, a norte do Japão. Um prolongamento da guerra poderia ter possibilitado a invasão soviética da ilha de Hokkaido, antes mesmo de ter lugar a invasão americana de Kyushu, programada para 1 de Novembro.

Sem dúvida que o uso das bombas atómicas reforçou a posição daqueles que no governo do Japão pediam a aceitação da rendição incondicional e motivou Suzuki a requerer a intervenção do imperador. A 10 de Agosto, a declaração de aceitação dos termos de Potsdam foi expedida para os Aliados.

Podemos concluir, portanto, que se o uso da bomba atómica não foi decisivo para a decisão de rendição, nem mesmo necessário para uma rendição incondicional antes da invasão de Kyushu, determinou, pelo menos, a urgência e, provavelmente, o momento da decisão. #História