Sou mulher e não me consigo (de todo) identificar com personagens como Bella Swann e Anastacia Steele. “Que estranho ela ser mulher e não gostar destas mulheres lindas!”, poderão estar a pensar algumas leitoras que anseiam por um Edward Cullen ou um Christian Grey que nunca virá. Porque haveria eu de identificar-me com histórias nas quais a protagonista tem que ser constantemente amparada ou salva, tem as pessoas em seu redor a gostar automaticamente dela sem ela ter revelado qualquer virtude peculiar, ou que passam a vida a queixar-se das suas vidas ou dos seus pares românticos? Ainda está assim tão presente a ideia de que a felicidade de uma mulher vem dos braços de um homem?

A fórmula para a criação deste tipo de personagens revela uma esperteza da parte das respetivas autoras: a criação de uma pessoa com inseguranças com as quais as mulheres se identificam.

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A mulher nestas histórias acha-se feia, pálida, magra, desajeitada, tímida, torturada, entre outros milhares de defeitos. À parte das inseguranças não existe uma verdadeira personalidade na personagem e a sua história pessoal pouco ou nada é explorada. No entanto, as mulheres encontram logo alguma insegurança que tenham em comum com a personagem, o que faz com que se identifiquem logo com essa “concha vazia”. O facto de a história ser contada na primeira pessoa ajuda a propulsionar a imaginação da leitora que, de certa forma, imagina que a história possa acontecer consigo. Logo aí há um elemento para prender muitas leitoras, particularmente as de baixa autoestima.

Depois o “homem” é introduzido. Muitas conseguirão imaginá-lo à sua maneira, contudo a escritora trata de dar uma ênfase peculiar ao aspeto físico da personagem, descrevendo-o (mais do que uma vez) como um “símbolo da perfeição”.

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Para alimentar a fantasia romântica esse ser masculino apaixona-se logo pela protagonista e torna-se dedicado a ela, apesar de algumas atitudes que na vida real seriam encaradas como perturbadoras. O homem destas histórias tem defeitos, nomeadamente um carácter possessivo e perturbado. Mas a carência e insegurança da protagonista levam-na a encará-lo como um ser “romântico”. Alguém que quer estar constantemente a seu lado certamente é por amor, certo? Alguém que teve um mau passado certamente pode ser curado com amor, certo? “Ele é torturado, mas eu consigo mudá-lo, certo?”

Aqui revelo o principal problema que tenho com personagens deste género: o valor delas vem do seu amante e não delas próprias. Sem o “homem de sonho” tornam-se seres deprimidos. São levadas a fazer coisas contrariadas, acreditando que assim o seu homem as amará mais. A falta de um verdadeiro carácter, bem como a fraca autoestima, acabam por torná las em mulheres que na vida real ou seriam infelizes, ou estariam envolvidas em relacionamentos disfuncionais e até violentos.

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O que distingue estas personagens de fraco carácter de outras personagens femininas memoráveis tais como a Princesa Leia da “Guerra das Estrelas”, Hermione Granger de “Harry Potter” ou Katniss Everdeen de “Jogos da Fome”? Apesar das falhas humanas que elas têm, o público não recorda essas personagens com base nas suas relações amorosas, mas sim naquilo que elas fizeram para se ajudarem ou a outros protagonistas. Eram personagens que continuariam a ser interessantes se não existissem os seus companheiros masculinos nas suas histórias. São personagens cujos feitios fortes as tornam em modelos para vários fãs das franquias em questão. Elas participam nas batalhas, salvam os seus amigos e elaboram ou lideram vários planos de ataque contra os inimigos.

Se Bella ou Anastacia se vissem envolvidas em algum dos géneros de histórias anteriormente referidos seriam aquelas que esperariam ou ser salvas ou que o homem resolvesse tudo por elas. E, sejamos francas, muitos não recordam com bons olhos uma personagem que se preocupa mais em ter namorado do que em tentar colocar as necessidades dos outros à frente das suas. #Filmes #Livros