Por estes dias, compreendemos que o presidente Cavaco Silva está tranquilamente a jogar computador. Civilization é um jogo de estratégia, criado por Sid Meyer, cuja primeira versão foi lançada em 1991. O objectivo consiste em governar e desenvolver uma civilização (ou "império", "estado", como se queira) desde a pré-história até ao futuro próximo. Ao longo de milhares de anos, o jogador toma todo o tipo de decisões políticas: desenvolver comércio e economia, explorar o mundo e fundar cidades, apostar no desenvolvimento científico e tecnológico, fazer a guerra e a paz, etc. Uma das características do jogo é a mudança de regime político, com novos regimes (como a República, o Comunismo ou a Democracia) a tornarem-se disponíveis ao longo do jogo e a trazerem vantagens e desvantagens diversas.

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É o próprio jogador que promove uma "revolução", quando pretende mudar de regime.

No momento actual, o presidente Cavaco comporta-se como um jogador de Civilization, sentado em silêncio atrás do monitor do computador. Quanto a nós, líderes partidários, militantes, eleitores comuns e abstencionistas, estamos todos dentro do computador de Cavaco.

Quem jogou Civilization sabe que, depois de adoptar o regime Democracia, é indiferente saber qual o partido ou partidos que estão no poder. Nas versões mais antigas do jogo, o jogador nem sequer lida com eleições, ideologias ou partidos; ele é simplesmente o líder de um país em Democracia. Quem joga tem sempre implícita "uma solução que assegure a estabilidade governativa", que foi o que Cavaco solicitou a Passos Coelho na semana passada.

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Para Cavaco, enquanto jogador, o que interessa é a estabilidade e a manutenção dos compromissos internacionais da sua "civilização", relativamente ao euro, à dívida pública ou até à NATO. Na qualidade de "reserva moral da Nação", ele está certo. Desde 2011, nenhum dos partidos com assento na Assembleia questionou seriamente a presença de Portugal no euro; nem surgiram novos partidos ou movimentos com base nessa premissa, como o Syriza na Grécia ou o Podemos em Espanha. Agora que Alexis Tsipras está a aplicar um programa de austeridade em Atenas, boicotado por alguns ex-camaradas do partido mas validado nas urnas, mais difícil parece a ideia de que os portugueses queiram mesmo arriscar uma saída do euro.

Por estes dias, assistimos a um vendaval de reuniões, declarações e muitas, muitas opiniões nos jornais, nos cafés e no Facebook. Ele é socialistas a exigir a demissão de Costa, o Observador a julgar-se em 1975 e a clamar que vem aí o PREC, a ala esquerda do PS e a UGT a exigirem acordo com a CDU e o BE, o secretário-geral da UGT Carlos Silva a defender o bloco central "a título pessoal" e ameaçando demitir-se se a UGT não estiver com ele, é Alegre a mencionar o fim do PREC, os eleitores da PAF contra um "#Governo de quem perdeu" e as "mentiras de Costa" e alguns comentadores à esquerda receando que os seus partidos venham a contemporizar como fez Tsipras.

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Para Cavaco, tudo isso é semelhante ao zumbido da ventoinha do computador. No fim, surgirá uma maioria parlamentar capaz de respeitar os compromissos e continuar a aplicar austeridade. António Costa já deu o passo de estadista, informando a Reuters, a UE e os mercados que será para ficar tudo mais ou menos na mesma, precavendo subidas de juros. Será um bloco central? Será uma "frente" de esquerda, apoiando o «Costa dos mercados» e enfiando o "Syrizismo" na gaveta? No pós-Tsipras, o laranja, o rosa e o vermelho são tons de cor muito parecidos.