O humor é realmente uma coisa atrevida, não acham? Satiriza situações mediáticas, ridiculariza determinadas figuras públicas, diz verdades que não poderiam (muitas vezes) ser ditas numa conversa comum e permite que fiquemos (um pouco) mais informados de uma forma descontraída. Contudo, o mesmo tipo de humor que agrada a gregos, cai mal para determinados troianos que rapidamente criticam piadas “rudes” ou “insensíveis”. Como é que uma forma de comunicação que nos deveria fazer rir da curta vida que levamos, acaba ultimamente por tornar-se num pretexto para atacar humoristas que misturam religião com brinquedos sexuais? Ou que leva a que estudantes universitários critiquem o humor de Jerry Seinfeld? Ou até mesmo que leve a atentados, tais como o que aconteceu na redação da Charlie Hebdo?

Uma das regras principais do humor não podemos negar: quando nos rimos é sempre às custas de algo ou de alguém.

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Seja humor ao vivo ou mediatizado, atualmente temos várias formas de humor ou de sátira. “Tom e Jerry” e “Laurel and Hardy” prezam pelo slapstick (forma de humor na qual alguém é magoado fisicamente); Seinfeld ou The Big Bang Theory são sitcoms que apresentam várias histórias recheadas de humor ao longo de um episódio em que uma personagem é atirada para uma situação apertada; nos EUA uma sessão de roast (tipo de humor em que uma pessoa é alvo de várias piadas) é uma prática bastante comum, especialmente entre celebridades; quem já tiver assistido a uma sessão de stand up comedy sabe que os alvos das piadas são os políticos, as esposas, as sogras, os estereótipos, os patrões e, em alguns casos, os próprios humoristas que parodiam a sua própria rotina.

O que têm estes exemplos (aparentemente tão diferentes) em comum? Todos conseguem o seu humor às custas do orgulho de alguém.

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Penso que cabe a cada um observar e saber quando alguém está a usar o humor para simplesmente deitar abaixo outra pessoa, ou quando está a criticar alguém enquanto expõe alguns argumentos fortes. Não existe nenhuma regra para saber que temas abordar e quando. No entanto, há uma diferença entre ser humorista e ser arrogante. Um humorista sabe do que está a falar, sabe os defeitos a apontar ao tema, é informado e, sobretudo, carismático sabendo que abordagem dar. Uma pessoa arrogante simplesmente quer ofender e ganhar fama com as reações controversas. Nada mais e nada menos.

A liberdade de expressão, apesar de ter a desvantagem de dar voz a determinadas bocas ofensivas, também nos permite retaliarmos contra esse tipo de ofensa. É uma faca de dois gumes. E quem a melhor manuseia é aquele que a souber usar da forma mais inteligente.

Muitos dizem “a liberdade de uns termina quando interfere com a liberdade dos outros”. Correto. Mas, no caso do humor, tal significa automaticamente que passe a ser proibido falar sobre x ou y tema? O que aconteceu, por exemplo, na Charlie Hebdo foi por culpa dos membros do jornal, cuja liberdade terminou ao abordarem temas religiosos? Ou será que a liberdade dos ofendidos é que terminou quando resolveram levantar armas contra alguém por causa de ter praticado uma liberdade de expressão à qual todo o ser humano tem direito?

Um humor que afirme prezar pelo “politicamente correto” não é humor de todo.

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Um humor que tente existir sem desafiar, não é humor de todo. Um humor que não diga verdades que seriam desconfortáveis num contexto comum, não é humor de todo.

E um humor que se encolhe diante de críticas ou pessoas que simplesmente “não entendem a piada”, é um humor morto. #Televisão