A crítica ao não-voto adquire um consenso algo inédito, comparado com outros temas da sociedade portuguesa. Discuti-lo e (horror) contrariá-lo, é coisa de anarquista e de não democrata. Tabu é a palavra de ordem quando falamos no dever de votar. Neste sentido, vamos agora desenvolver tentativa de defesa da abstenção.

Em primeiro lugar, esta assunção do dever e quase obrigatoriedade em votar é uma grande ajuda ao clubismo político. Assistimos em Portugal a uma visão da política e dos partidos como se de clubes de futebol se tratasse. Na generalidade, as pessoas votam no PSD, no PS ou em qualquer outro, porque os pais eram desse partido, porque defendem esse partido desde “pequenino”, tal e qual como são do Sporting, do Benfica ou do Porto.

Publicidade
Publicidade

Ora, a política não é futebol. O futebol e o clubismo fazem parte do irracional, da paixão, e a política deve ser tudo menos isso, é demasiado séria para ser isso; a política deve ser espaço da racionalidade, do espírito crítico, de uma visão de sociedade, de ideologia. Seria interessante fazer uma sondagem ao chamado “eleitorado” do partido, que aferisse o porquê de votar naquele partido, se sabe o que aquele partido defende, incorpora, que filosofia ideológica tem, em que escola politica se baseia, se consegue explicar a diferença entre esquerda e direita e se, no acto de votar, analisa os diferentes projectos e propostas antes de materializar em voto.

A verdade é que não é assim, as pessoas votam no partido x, porque sempre votaram no partido x. Mesmo que esse partido x os tivesse prejudicado e feito algo com que não concordam, a retórica que esse partido x apresenta para se justificar é assimilada com facilidade, da mesma maneira que, para mim, o Bruno de Carvalho é o maior e tudo o que ele diz ou faz está certo.

Publicidade

Um não-votante, que o é por não se rever em nenhum partido politico, que o é por ,no final da sua analise sobre as propostas oferecidas por cada um, nenhuma se incorporar no que ele acha certo para a comunidade, esse não-votante tem o meu respeito, porque esse não-votante pensa, é livre, e é ele verdadeiramente que se afigura como “voto de protesto”. Nele se consubstancia o poder do voto, porque o voto só é importante, relevante e realmente um garante da democracia se os votantes o sejam com “consciência”, com pensamento. Com poder vem responsabilidade, sem ser assim a democracia é uma falácia.

Em segundo lugar, no Portugal de 2016, o voto vale pouco. E é assim por duas razões:

Primeira razão, o poder. O efectivo poder já não está na política, migrou nos últimos anos da política para o sistema financeiro, a nova ordem mundial. As agências de rating, os “mercados”, o “quantitative easing” de Draghi, os bancos, enfim, o sistema financeiro no seu todo tem hoje mais influência, para melhor ou para pior, do que muitas medidas legislativas que o governo possa tomat, como aliás temos assistindo desde a crise de 2008.

Publicidade

Segunda razão, a perda de soberania portuguesa. Hoje mais não fazemos do que eleger fantoches. Com o euro e o tratado orçamental, a política nacional tornou-se condicionada, o grosso da mesma é imposta, dando pouca margem de manobra para fazer algo de diferente e realmente escolher um caminho. O caminho é o do PPE, do banco central europeu, da senhora Merkel, do senhor Schauble e do Eurogrupo. E o mais triste é que o não acatar desse status quo implica graves consequências para Portugal e o seu povo. As autoridades políticas portuguesas têm que ser pragmáticas em relação à Europa. Portugal passou o ponto de não retorno e já não pode sobreviver sozinho.

Para concluir, o abstencionista que o é por não se identificar com nenhuma opção politica, conscientemente, que o é por perceber que o poder migrou da política para o sistema financeiro e que olha para efectiva perda de soberania portuguesa como limitação democrática, esse não-votante representa indubitavelmente o verdadeiro e informado voto de protesto!   #Política Internacional #Eleições Presidenciais #Direitos