As tradições mudam porque mudam os tempos, não as vontades. Recuemos no tempo. Segunda-feira, 2 de Março de 1987. Depois das 20 horas os jovens da aldeia, de uma parte de Mouriscas, concelho de Abrantes, começam a sair de casa em direcção à sede d’Os Esparteiros, ainda em obras. É ali que vai acontecer o baile de Carnaval, tradição da terra. Os mais novos, 13, 14 e 15 anos, vão para o salão, que já tem as cadeiras todas certinhas para receber os foliões. Os jovens mais velhos, dos 16 em diante, reúnem-se ali por perto, numa espécie de bando.

Quando chega a meia-noite os habitantes mais velhos começam a regressar às suas casas e os tais jovens vêm à rua dizer aos outros quem já saiu e quem ainda está.

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A comunicação é feita frente a frente e com correrias loucas dos jovens.

Quando chega a meia-noite, inicia-se o dia 3 de Março e começa mais uma noite de tradição da aldeia. O grupo dirige-se para o largo da Bagaceira e com uma roda feita, os mais velhos iniciam as explicações (briefing) da noite. “Há 33 carroças que temos de trazer para aqui. Este ano devíamos ser mais uns quantos mas temos até às 5 da manhã para as trazer”. Dividem-se os jovens, os mais novos acompanham os mais experientes e vão para os locais mais fáceis.

Nesta busca das carroças há aquelas que são fáceis, as de dificuldade média, pelos sítios onde os donos as guardam, e os prémios, aquelas que os donos guardam a sete chaves, com correntes e às vezes até dormem em cima delas com a espingarda ao lado. Desafios para uma noite que acaba por ser curta.

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Cerca de meia hora depois começa a ouvir-se o ruído das rodas metálicas nos grãos de areia das estradas de Mouriscas. O largo da Bagaceira começa a ficar preenchido. Uma. Duas. Três e por aí fora. Todas estacionadas em fila e a garantir espaço para as que ainda estão para chegar.

Cada carroça tem uma história que será contada nos dias seguintes. Já pelas quatro da madrugada toca a reunir novamente. Estão 27 carroças no largo. Faltam seis. As mais difíceis. Três delas porque são necessários vários braços. Uma tem de sair por cima do muro, que o portão está fechado. Avança a “tropa” toda. Mais meia hora e mais três estão a caminho do largo.

Faltam agora mais três. Os donos não gostam nada da brincadeira. Espalham a sete ventos que dormem com a espingarda ao lado. A estratégia destes já tinha começado bem mais cedo. Cerca da uma da madrugada um dos grupos tinha por lá passado e tinha feito barulho para que o dono entendesse que tinham tentado levá-la. Um deles chegou mesmo a mandar um tiro para afastar o grupo.

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Só que tinha baixado a guarda e acabou por ir descansado fazer o seu sono. Os jovens entraram no palheiro e tiraram a carroça.

Noutro dos casos recorreram a um neto do homem. Conseguiu desviar a chave do portão e entregou-a ao grupo, que tirou a carroça e devolveu a chave que o neto colocou no local habitual.

A última foi a mais difícil. Estava no terraço da casa, cheia de latas. Pensava o dono que se a quisessem levar iria fazer barulho. Aqui foi tudo muito mais trabalhoso. Tirar todas as latas em silêncio. Forrar as rodas metálicas com sacos de serapilheira, para ser uma saída silenciosa. E depois, sair pelas traseiras, pela horta e por terrenos cheios de erva molhada. Mas o prémio mais apetecido foi colocado no largo no centro de todas as outras.

5 e picos da manhã: o bando desfaz-se e regressa a casa com o pacto de silêncio sobre a noite. Tempo de dormir umas horitas e às 11h ir ao café para ver as reações dos donos.

E via-se de tudo. Os que iam com os machos ou burros à rédea. Outros tinham ido ao nascer do sol. E havia os que iam zangados, ameaçavam tudo e todos e chegavam mesmo a dizer que iriam chamar a guarda (GNR).

Ao fim e ao cabo, nessa manhã de 3 de Março de 1987 a tradição tinha-se mantido. Cinco horas, cerca de 30 jovens e 33 carroças no Largo da Bagaceira.

Hoje, 9 de Fevereiro de 2016, o largo existe e com ela as memórias de outros tempos.

Como começou ninguém sabe ao certo, mas histórias existem muitas. #Curiosidades #Carnaval