Há certas ideias que me causam comichão. Deixam-me desconfortável. Fazem esquecer a música da igualdade. E muitos daqueles que a cantam acabam por, às cegas, torná-la num daqueles falhanços de festival da canção.

O que une a maior parte das ideologias é uma crença, uma partilha de valores. A diferença entre as crenças moderadas e a crenças extremas está na falta de bom senso. Vejamos o machismo, extremo por si só, e o feminismo exacerbado.

Hoje o machismo não rebaixa apenas a mulher. Rebaixa também aqueles homens que, para eles, são "homens com M grande". É casado com a homofobia. Homem que é Homem não deixa a mulher sair.

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Pelo menos do seu lugar – a cozinha. Se uma mulher quer ser digna não pode sair à noite. Homem que é Homem não chora. Não beija outro Homem na cara. Que falta de masculinidade. Muito mais ainda depilar as pernas. Homem que é Homem traz o dinheiro para casa. Ganhar menos que a mulher, nunca. Mulheres no futebol? Futebol é coisa de macho! E atenção que Homem aqui implica o grafismo com letra maiúscula. Se for um homossexual o acordo ortográfico machista obriga a redigir com letra minúscula.  

Por outro lado o feminismo surgiu, e muito bem, como um protesto de igualdade. Hoje essa igualdade é abusada em algumas ocasiões. Obviamente que fora do debate ficam os casos onde as mulheres são vistas como um objeto. Onde crianças são vestidas como adultas e vendidas como uma mercadoria. Onde verdadeiras #Causas são defendidas.

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Mas aqui, no mundo contemporâneo. Onde o tempo de antena dos chamados “machos” tem vindo a desaparecer de mão dada com a liberdade.

Vejamos o feminismo disfarçado. É aceitável uma mulher agredir um homem. É motivo de brinde entre as amigas. Os homens são bichos que quanto mais longe, melhor. Todos iguais. São uns predadores sexuais que por aí andam. E quando o assunto chega às limpezas de casa, bem o assunto é sujo. Mulher que é Mulher é uma rainha, daquelas com coroa. Mulher que é Mulher muda de vida quando lhe apetece. Mulher que é Mulher usa e abusa do cliché: corta o cabelo e muda de vida. Tal como um machismo já não é apenas um protesto contra o sexo oposto, em alguns casos, o feminismo não é só um protesto de igualdade. É o enaltecimento do sexo feminino. É o chamado feminazismo.

Um exemplo, bem recente: a campanha Dear Daddy. Forte. Como se somente as raparigas sofressem na adolescência. Como se o assédio sexual fosse um problema com género. Assumir a mulher como o elo mais fraco e o homem como o mais forte levanta duas questões: assumir-se o sexo feminino à partida como um ser inferior e cair no erro de levar a crer que o sexo masculino não precisa de proteção.

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Quantos casos existem de violações infantis com rapazes? São crianças também. E são estas crianças que precisam de ser educadas para a igualdade.

Se o machismo é já por si exagerado, nacionalista, o feminismo extremo partilha o mesmo problema: olhar apenas para o próprio nariz. Olham para o ser humano com género, com rótulo. É uma miopia de género. Se esquecermos o homem e a mulher, hoje somos cidadãos, com direitos. Somos pessoas. Não somos o homem que não merece a mulher, porque ela é o sexo forte. Não somos a mulher pré-fabricada para exercer as suas funções. Digamos que estamos a entrar no campo de escolher o que querer ser. É mais bonito. Num festival da canção, daria uma boa pontuação.