Hoje escrevo-vos sobre a eutanásia. Um assunto tão sensível quanto frio. Num tom de brincadeira para apaziguar todo o peso que a palavra carrega: seria frio, frio, frio para quem o auxilia e quente, quente, quente para quem está cada mais perto de concretizar uma vontade: morrer.

Neste assunto não existem meias palavras. Não existem eufemismos. A vontade de muitas pessoas é mesmo essa, morrer. Morrer em vez de sofrer. E é uma vontade muito legítima. É verdade, existem muitas questões éticas que se levantam. Mas a eutanásia nada mais é do que uma vontade quando já não existem recursos. Um desejo de querer falar mais alto do que a ética. 

Comecemos por transcrever posições distintas de encarar este facto.

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Existem os crentes – os que acreditam que há um poder, há um  todo  poderoso que decide a partida de um outro alguém. Não se sabe para onde, mas acreditam que para um mundo melhor. É a visão mais religiosa da coisa. Por outro lado, existem aqueles que não estão para estar por aqui a sofrer. Que deixa de fazer sentido, quando não se pode realizar. Quando não se pode viver. E quem é que os pode julgar? A #Religião? É aqui que reside a hipocrisia de igreja. A que não julga. A que respeita. Na teoria. 

A Igreja Católica alega que o necessário é cuidar da vida. Mas qual vida? Aquela passada numa cama de hospital? Aquela que espera pelo dia da morte? Não se pode obrigar a viver para seguir a ordem natural das coisas. Porque não existe uma ordem. Existem crenças, sim. Mas há que respeitar essas crenças.

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E a Igreja Católica acredita naquilo e somente naquilo, de olhos fechados.

O amor é outro dos argumentos usados. Mas qual amor? Aquele que prefere ver sofrer? Essa é uma ideia tão redutora daquilo que é o amor. O amor não prefere prolongar uma vida de sofrimento. Não é egoísta ao ponto que querer prender uma pessoa à vida, só para tê-la mais tempo, quando a vontade de quem se arrasta pelos dias, é só uma: soltar-se e ir. 

Claro que uma coisa é falar de quem tem o poder de decisão. De quem escolhe essa opção porque está simplesmente farto/a. Outra coisa é falar de crianças. Que vivem num outro sítio. Um sítio sem compreensão do que se passa à sua volta. Mas quando a decisão cabe aos pais, é apenas aos pais. Não é à religião. Não é aos médicos. Não é a ninguém. É a eles. É a decisão do querer acabar com um sofrimento sem data de partida. É tão grave assim querer antecipar essa data, quando se sabe que vai acontecer? 

A eutanásia é sem dúvida um assunto que divide opiniões. E tanto mais há a dizer.

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Mas uma coisa é certa: no domínio da opinião, não há certo, nem errado. Mas a minha opinião é esta: quando se trata de um jogo com vidas, a ética não deve falar mais alto. Não existe aquilo que deve ser. Não existe religião. Há apenas uma pessoa que tem uma vontade. Não é o direito de matar, é o direito de morrer. Não é a violação do direito à saúde. É uma intenção quando já não há saúde para tratar. 

Referindo o que dizem os mais religiosos, mas num contexto mais realista “que seja feita a sua vontade”, não a de alguém que nem todos acreditam. Mas a de alguém que todos sabem que existe e que apenas quer deixar de existir. É uma viagem sem regresso. 

  #Casos Médicos #Causas