Em resposta ao seu e-mail relativamente à minha candidatura espontânea, gostaria de lhe dirigir algumas palavras.

Primeiramente, quero informá-la que a minha candidatura deve-se ao facto de a empresa na qual a senhora se encontra a trabalhar ter colocado uma oferta de emprego no IEFP, à qual me candidatei online. Por aqui, já se percebe que algo está errado, tendo em conta que a própria funcionária não está ao corrente do que se passa na empresa.

Encontro-me inscrita no IEFP há 11 meses. Fiz centenas de inscrições a ofertas de emprego, desde ofertas na minha área de residência a ofertas internacionais. A essas centenas de ofertas, sabe quantas respostas recebi? Zero.

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Isso mesmo, não estou a brincar. Zero.

Em 11 meses vou referir tudo o que perdi:

  • dinheiro (dos meus pais, tendo em conta que estou desempregada e vivo com eles) para me deslocar de carro até à cidade e distribuir currículos;
  • dinheiro (dos meus pais, tendo em conta que estou desempregada e vivo com eles) para imprimir dezenas de currículos para distribuir pelas lojas;
  • tempo (que poderia ter aproveitado para me dedicar, quiçá, à agricultura, já que este país coloca os jovens a pastar);

Mas nem tudo são espinhos, também ganhei:

  • vácuo (sendo que nunca se dispuseram a responder às ofertas ou a contactar-me);
  • tempo (para continuar a procurar trabalho e a gastar o dinheiro que não tenho na impressão de currículos, que vou começar a redigir à mão);

Não se sentiria injustiçada se estivesse na mesma situação que eu? Em que tudo o que recebe são portas fechadas na cara e respostas néscias e caóticas?

Voltando novamente ao motivo que me levou a responder ao seu e-mail, o que eu queria dizer exatamente é que após 11 meses a candidatar-me a ofertas pelo IEFP online, recebi uma carta com todas as informações necessárias para comparecer presencialmente na vossa empresa – na empresa onde a senhora tem um trabalho, um ordenado e onde passa o dia sentada, muito provavelmente a receber currículos de outros quantos burros e asnas como eu –, entrei em contacto convosco e depois da sua colega gaguejar um pouco, porque não sabia o que dizer, enviei-vos o meu currículo.

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A sua colega disse-me: "Estamos a receber os currículos primeiro, três semanas, ao fim das quais, entramos em contacto e chamamos para entrevista, queremos chamar todos os candidatos na mesma altura". Claramente ela não o disse nesta ordem nem com esta facilidade; como referi, gaguejou um pouco e como não sou asna de todo, logo concluí que aquela conversa não passava de palha para burro comer e nem depositei qualquer expetativa na entrevista para a qual seria eventualmente chamada. 

Ainda estou em dúvida de quais as vantagens que as empresas têm ao ofertar trabalho no IEFP, mas julgo que elas existem e prometo informar-me sobre tal. Afinal, qual o objetivo que leva os senhores doutores a colocarem que precisam de um funcionário, sem precisarem dele realmente?

Senhores doutores? Pfff. Chamar-vos "senhores doutores" é um insulto aos verdadeiros doutores, àqueles que ganham um ordenado miserável, àqueles que são sobrecarregados com doentes porque o sistema é uma bodega, àqueles que salvam vidas.

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Esses sim, merecem o estatuto de doutores. E os outros, os que deixam o país para trabalhar nas obras e sustentar a família, os que contam as migalhinhas, esses que lutam pela vida aqui neste país, onde vocês nos comem o pão nosso de cada dia e nos respondem: "Boa tarde. Agradecemos muito o envio do seu Curriculum Vitae e o interesse pela nossa Empresa. De momento não estamos a contratar, mas arquivaremos o seu CV para considerarmos a melhor oportunidade".

Posto isto, queria dizer-lhe que é de uma falta de ética e profissionalismo comprometerem-se a chamar uma pessoa para uma entrevista no prazo de três semanas e ao fim de cinco dias dizerem que afinal não estão a contratar!

Remato esta minha mensagem, onde revelo o meu descontentamento, não apenas com a sua empresa, mas com o sistema, no geral. 

Cumprimentos,

Letícia Brito. #Desemprego