Logo na chegada, os cerros repletos de casas tomam a atenção. O colorido verde das árvores, que talvez devesse predominar ali, existe apenas em pontos isolados, distantes. Em vez disso há o vermelho dos tijolos à vista das moradias improvisadas erguidas umas sobre as outras: malabarismo. Mas estão firmes, à exceção talvez dos seus tetos metálicos, ora remendados, outras várias vezes pressionados por pedras grandes. Talvez voem com facilidade. Ojalá não deixem sua gente, que somada supera a marca de 2,7 milhões, com a cabeça a ver o céu enquanto sopra forte o vento numa tarde de domingo. Ou numa manhã de sexta-feira, viernes, dia de Vênus, planeta do fogo.

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Gente, aliás, é o que mais há por Medellín. No centro, nas comunas, no trem, nas praças vendendo muamba ou engraxando os sapatos dos finos  —  que talvez só tenham um pouco a mais do que os homens de cabeças abaixadas e mãos pintadas de pasta preta. Ou marrón, às vezes a pasta é marrón.

Eis o segredo para ver a cidade como ela realmente é: olhar seu povo. Nada impressiona mais do que ver a gente de Medellín. E não basta observar os passos apressados. Há que mirar fundo nos olhos e ver sua alma. Quem sofreu tanto tem muito a ensinar. Na verdade, ainda se sofre por lá. Mas é menos.

Colômbia: as marcas da guerra

Um senhor que estava no metrocable no domingo histórico de 2 de outubro deste ano, indo para seu local de votação para decidir o futuro da guerra e da paz, lembrou o momento em que viu as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) serem o que sempre foram -  e dizem que já não querem mais ser  -  cruéis.

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Trabalhava em uma finca e teve que sair de lá às pressas sob a mira dos guerrilheiros, os novos donos daquela terra tomada de assalto. Ele correu de mãos unidas agradecendo a Dios pela vida que ainda tinha. E que segue com ele ainda hoje. Quando visita o passado, encurta a memória para saudar o presente.

Hoy estamos muy mejor.

Por mais que pareça que, não, a resposta é sim, Medellín hoje está bem. Isso, claro, em comparação ao que foi num passado nada distante. Em 1991 morreram lá mais de 8 mil pessoas. As taxas de homicídio do início desta década eram de 360 mortes por cada 100 mil habitantes. Agora, 25 depois, segundo o prefeito Federico Gutiérrez Zuluaga, baixaram para 20 mortes a cada 100 mil habitantes.

El primer a hacer és no negar nuestros problemas — diz ele.

A memória de Escobar

Isso é verdade. E ninguém ali nega seus problemas. Mesmo quando se fala em Pablo Escobar — assassino, torturador, narcotraficante, um dos homens mais ricos e perigosos do mundo nos anos 1980 — todas as perguntas são respondidas.

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Mas, é claro, ninguém gosta muito de falar disso. Como o guia que segurava um mapa da cidade e, quando perguntado sobre o nome do bairro em que Escobar morreu, respondeu rapidamente, dobrando o mapa e reunindo os turistas para iniciar o passeio sem falar mais uma palavra que envolva o patrón.

O futuro é agora

Entretanto, alguns dizem mais sobre o assunto. Mas em cochichos, nunca em alta voz. A censura parece ser moral. Sim, viveu-se aquilo. Mas, sim, há que seguir. Adelante, sempre. A dor existiu, ainda é sentida em feridas que volta e meia se abrem e deixam passar um pouco de sangue. Mas, resiliente, aquela gente sabe olhar para a frente e não mais chorar. Muito menos morrer.

O futuro de Medellín talvez precise de tinta. Não somente daquela que colore a parede de tijolos virgens de pigmentação, mas de uma mais forte, que se possa passar por cima da tonalidade dura que existe para então criar algo novo, a partir do velho, a cor a partir da dor.

Não é tentativa de esquecer o que foi, isso jamais. É só para que as camadas de tingimento lembrem que o presente está melhor do que o passado, lembrem de que se foi possível chegar até aqui, também é possível ir mais além.

Branco é o tom da paz, verde é o da esperança. Medellín é o tom da resiliência. #colombia #História #Política Internacional