A escrita da islandesa Audur Ava Olafsdottir é simples, extremamente simples. Eu diria que todas as palavras são perceptíveis. Não é preciso dicionário nem enciclopédia. E o livro “Rosa Cândida” prova que, de facto, a linguagem simples é a mais bela e cativante. “Rosa Cândida” é um livro extremamente visual, em que a percepção é feita sem ruído. Com isso, a narrativa é construída na cabeça do leitor quase de forma automática. Universal. Sala de cinema. Como se de um leitor para o outro estivesse a ser transmitido o mesmo filme.

Tem nome de flor mas o livro até que dá umas dicas úteis sobre culinária. Começa no eglefim, um peixe de águas geladas semelhante ao bacalhau, e termina nos bifes de vitela, passando pelos molhos e pelas sobremesas.

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Um bom desvio de uma narrativa que tem em Lobby a sua personagem principal. Trata-se de um jovem que acabou de perder a mãe há pouco tempo e que mantém uma estranha relação com o pai e com o irmão autista. Principalmente com o pai. Aliás, curiosamente, é a própria culinária que vai aproximando pai e filho, numa relação que se vai “polvilhando” página após página. Lobby é também pai acidental de Flora Sol, fruto de uma relação muito casual com Anna, que mal conhece.

Afectado pela morte da mãe, Lobby decide deixar a Islândia rumo a um antigo mosteiro onde há um magnífico jardim de rosas. É lá que se vai dedicar a fazer crescer a rosa de oito pétalas, seguindo os conselhos da sua mãe. É na altura em que Lobby está a adaptar-se ao novo quotidiano que aparecem Anna e a sua filha Flora Sol. Afinal de contas, relação fortuita ou menos fortuita, ele é o pai da criança e há obrigações a cumprir, sobretudo numa altura em que a mãe se encontra sobrecarregada a terminar a sua tese académica e precisa de um espaço para a terminar.

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E a segunda parte do livro é mesmo a mais cativante. Como conhecer alguém que nos é desconhecido, mas que é mãe da nossa filha? Não é suposto ser o contrário: conhecer primeiro e pensar em ter filhos depois? Pois bem, todo o universo de Lobby é um universo de dúvidas. De dúvidas acerca do que dizer, de onde colocar as mãos, do que cozinhar ao jantar. Se deve ou não equiparar-se à mãe em termos de educação da filha ou se deve assumir um papel secundário? E em toda esta racionalidade como lidar com a componente emocional. Há que viver num pequeno espaço com uma mulher atraente e contribuir para o crescimento saudável de uma filha com semelhanças físicas muito notórias. Uma filha que cresce vendo os pais com uma relação muito distante.

É todo este jogo, todo este enigma, todo este cenário construído na segunda parte do livro, que transporta “Rosa Cândida” para a excelência de leitura. Dada a qualidade e a fluidez da escrita, mesmo os momentos mais desinteressantes da narrativa se tornam fáceis de ultrapassar.

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Não é propriamente uma narrativa rápida. É serena e tranquila. Mas é #Literatura de referência. Notável a forma como Audur Ava Olafsdottir consegue construir uma espécie de tabuleiro em que não se sabe se é mais cómodo avançar ou recuar. Isto porque qualquer gesto ou frase é um risco tremendo. Com edição da Alfaguara, a tradução é de João Tordo. Livro altamente recomendável! #Livros