Eu fui a Fátima nos dias 12 e 13 de maio, por chamamento, ou seja, decidi partir às 17 horas de sexta-feira, sem preparações prévias e sujeitando-me ao imprevisto e aos riscos dessa atitude precipitada. A viagem decorreu debaixo de chuva torrencial e quase incessante, mas fez-se luz mal foi transmitida a notícia da chegada a Portugal de Sua Santidade o Papa Francisco. Ressalvo que esse manto de luz surreal que nos envolveu perdurou noite dentro. Por entre silêncios e manifestações de fé no Santuário, retoma e pausas de aguaceiros, a luz perdurou até ser manhã no olival onde acampamos por falta de alojamento.

Pelo caminho e durante as celebrações, escutei frases do Santo Padre que fizeram parar, mas não o vi passar (apenas ao longe, nos ecrãs).

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Falta de sorte! Talvez não tenha esperado horas suficientes, debaixo de sol, calor, frio e chuva, ou "acampei" no sítio errado... Mea culpa.

Voltando à luz, recordo que SS o Papa Francisco se referiu à mensagem de Lúcia para dizer que os três pastorinhos ficavam envolvidos num "manto de Luz que Deus Lhes dera". Fátima é também esse "manto de Luz" para os peregrinos que encheram o recinto do Santuário de Cova da Iria, onde o Papa Francisco lembrou três vezes: "Temos Mãe". Uma Mãe que nos ilumina noite e dia em Fátima e no mundo (esperançamos).

Aos olhos dos ecrãs, e face ao investimento considerável em termos de infraestruturas e segurança, o espaço parecia impecável para receber o milhão de visitantes de todas as nacionalidades, etnias, idades e estratos sociais que conviveram de forma pacífica e exemplar num dos mais importantes santuários marianos.

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O descontrolo reinava apenas nas tais infraestruturas que se mostraram, afinal, insuficientes: nas filas intermináveis para as casas de banho escassas; no lixo acumulado pelas ruas e velas incendiadas, a par e passo com os "campistas" adormecidos num qualquer canto do chão, evitando pagar preços exorbitantes pelo espaço e saco-cama; nos carteiristas disfarçados na multidão; no exagerado levantamento de velas por parte de alguns que suscitou suspeitas de serem supostamente oferecidas. Todos males menores, não pesados no saldo final.

Nas saídas e entradas do recinto, como no próprio Santuário, os inúmeros peregrinos comportaram-se de forma impecável, criando filas em dois sentidos contrários, caminhando cuidadosa e lentamente, respeitando os "acampados" no terreno sagrado.

Infelizmente e talvez mercê do desânimo ocasionado pelas "condições desumanas" em que revelaram encontrar-se, alguns membros das forças da GNR mostraram prepotência e arrogância, empurrando com determinação pessoas indefesas, de todas as idades, sem pensarem nos danos e consequências.

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Em especial nos referidos corredores laterais de mais fácil acesso à Capelinha das Aparições.

No dia 13 de maio, junto à "relíquia" do muro de Berlim, aguardando serenamente a entrada para a missa presidida pelo líder da Igreja Católica que celebrou o centenário das aparições, canonizando os pastores Francisco e Jacinta Marto, não faltou quem se queixasse de ser maltratado verbalmente e empurrado à força por agentes da GNR. Por sorte, não houve ferimentos e pânico. Valeu-nos a Virgem.

Não se pode separar o trigo do joio, o Santuário está aberto a todos, santos e pecadores. Além do mais, a discriminação é avessa aos mandamentos de Deus. E, verdade seja dita, a maioria dos militares fez esforços de louvar. Estranhamente, a Imprensa não registou qualquer incidente. Não obstante elevar-se em palcos de vidro do alto do Santuário para nada perder de um lado e do outro.

De costas para o polémico terço de Joana Vasconcelos que liga simbolicamente o céu e a terra. com os seus 28 metros de altura e 540 quilogramas, poderíamos distrair-nos com as tantas caras conhecidas da televisão a fazerem entrevistas a personalidades. E não. As orações, os cânticos, os silêncios profundos, sobrepuseram-se a tudo.

Mal a escultura se acendeu com a entrada do Santo Padre no recinto, ninguém ficou indiferente. Maravilhou-nos a luz do terço "Suspensão" que ganhou cor à passagem de SS o Papa Francisco, justificando bem a escolha. Tanto quanto a luz persistente das velas, resistindo à própria chuva. A luz dos corações que o Santo Padre reforçou com as palavras de esperança. A luz de um céu com lua quase sempre encoberta que se acredita irreal. A mesma Luz de Fátima e dos crentes, onde os não crentes não deixam de estar incluídos.

Ficou-me o silêncio, a paz e a civilidade dos peregrinos que nos unem e educam na #Religião e cidadania, em contraste com o grande aparato da "guarda" militar e palanque da imprensa que marca o sensacionalismo de hoje. Longe da ética moral e despretensão espiritual.

Os tempos renovam-se, alterando mentalidades e condutas, mas a esperança dos que sentem na pele o peso dos erros humanos e que o Santo Padre enaltece, parece não esmorecer. Fica a prova nas bandeiras levantadas do mundo inteiro, a Nossa Senhora de Fátima, Nossa Mãe, e à paz na vida. (Nem sei se por vã glória, num milénio em que tudo vale.) #Santuário de Fátima