Num dia de Agosto do longínquo ano de 1995, no norte do concelho de Abrantes, mais propriamente na zona de S. Domingos, um imparável incêndio florestal varria hectares e hectares de floresta. Centenas de #Bombeiros, GNR, escuteiros, cidadãos e demais voluntários, extenuados, talvez desidratados, lutavam contra as labaredas. Já tinham muitas horas no corpo. Temperaturas insanas. Ar irrespirável. #Ambiente infernal. Uivos das sirenes. Roncos dos motores. Gritos de desespero. Rádios com comunicações arrepiantes. Um puto da rádio tentava saber informações para os directos constantes. Que meios? Que estratégias? Que aldeias em perigo? Que estradas cortadas? Quais as ajudas necessárias? Qual a previsão da meteorologia? Quando chegariam mais reforços? E mais aviões? E mais máquinas para abrir aceiros e caminhos?

No meio de toda esta azáfama chega a notícia ao posto de comando que 3 idosos tinham sido encontrados carbonizados.

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Drama total naquele momento, ainda que sem confirmação. As famílias pediam ajuda para localizar o pai, o avô ou o tio. O primeiro impulso era dizer logo ali que estavam mortos. Mas havia procedimentos. O comandante operacional, na altura, fez um pedido simples: espera uns minutos. Deixa confirmar as mortes e falar com as famílias. Bastaram dez minutos. Quando peço um directo penso em mil e uma formas se dar aquela notícia em primeira mão. Mas não há meios termos. Lembro-me bem.

"A tragédia chegou a Abrantes. Há 3 vítimas mortais a lamentar. 3 idosos que, ao que tudo indica, estavam a fugir do fogo." Depois pedi a confirmação ao comandante, para atestar a informação acabada de dar. Ali, ainda a quente, quem ouvia a rádio e a noticia gritava, chorava, gemia. Quando terminei aquele directo olhei aqueles familiares em transe completa e encostei-me a uma das viaturas ali estacionadas.

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Nesse momento uma mão pousou no meu ombro e uma voz forte e rouca disse-me "é das maiores dores para um bombeiro. Uma vida que não conseguimos defender."

O incêndio de Pedrógão

Ontem e hoje lembrei-me desta tarde já há mais de 20 anos e imagino a dor das centenas e milhares de bombeiros que não conseguiram defender aquelas dezenas de pessoas. E imagino as famílias. E sinto-me como naquele momento. Não tenho o microfone nas mãos. Não tenho o jipe para me encostar. Estou longe do posto de comando. Mas sinto o que, infelizmente, já senti. E depois ouve-se e lê-se cada alarvidade que, enfim.

Em 48 horas Portugal ganhou tantos especialistas em fogos, combates, estratégias.

Mas e durante o ano, onde andam? E as condições perfeitas (meteorológicas) para rebentar algo assim? E o calor? E a humidade? E os ventos? E o relevo? E a densidade florestal?

Doeu. Os cinco minutos gastos às cinco da tarde desta segunda-feira, quando vi 31 capas de jornais do mundo inteiro com a tragédia de Portugal.

Tal como em 1995, noutros moldes, tempos, realidades e por aí fora...

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o fogo é um inferno autêntico e, com as condições perfeitas, é das coisas mais assassinas que existem.

Infelizmente existem. #Blasting News Portugal