Em Sobral de São Miguel, aldeia serrana do concelho da Covilhã, com o seu estatuto de potencial turístico elevado a Aldeia do Xisto, tem pedras e histórias para contar. E não apenas por homens… É aqui que a relação com a pedra de xisto e de ardósia ganha contornos fáceis e belos de observar. Não apenas pelas duas pedreiras existentes e facilmente localizáveis, com entrada à beira de uma estrada de entrada para a freguesia, mas também porque muito do seu casario, entre outras estruturas, como escadarias ou muros, mantêm a tipicidade de outrora. Notoriamente trabalhadas com afinco e saber. Pedra sobre pedra…

A arte de trabalhar a pedra tem muitos segredos.

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E são as próprias pedras que os revelam… Elas "cantam" para os homens que as abrem. Dão sinais, pistas para os homens as saberem e conseguirem trabalhar. Para que a perfeição deste trabalho árduo, com certeza de muitos séculos, pelo menos por estas bandas, saia beneficiada.

Para José Geraldes da Silva, um dos homens a quem uma das pedreiras garante um salário e uma profissão, este é "um trabalho duro", pois, "a pedra é difícil de trabalhar e de abrir. Por vezes queremos fazer uma laje e a pedra não quer, não nos deixa".

A desconfiança, causada pela crise internacional galgou sobre muitos negócios, que têm sempre de ser ponderados, sob garantias. Para José Paiva, agora reformado e antigo proprietário de uma das pedreiras -negócio com mais de cem anos, já do tempo de seu avô e que agora passou para ambos os filhos - "este é um negócio do qual não dá para viver, mas sim para sobreviver".

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A pedra ainda tem alguma exportação, "sobretudo para França. Mas é para o nosso país que escoa mais facilmente, sobretudo para a Beira Alta, em zonas como Arganil, Oliveira do Hospital, Seia…" prossegue José Paiva. A pedra é sobretudo usada para os típicos telhados de ardósia. O xisto é muito procurado para diversos fins na construção civil, desde o forrar casas, para pavimentos, mosaicos, paredes, calçadas, entre outros fins.

Entrevista a José Geraldes da Silva

Quais as diferenças entre o xisto e a ardósia, também conhecida por lousa?

A ardósia é a pedra usada nos telhados. O xisto utiliza-se sobretudo para as paredes, mas também para o mosaico rústico.

Ainda é habitual o uso de ardósia nos telhados?

Aqui na aldeia e nos arredores ainda é muito utilizada. Mas também na zona de Vide e do Piódão.

Também aí há pedreiras?

Não. Toda a pedra vai daqui da aldeia para lá.

Este tipo de pedra tem muita procura?

Sim, tem tido. Por enquanto ainda não decresceu com a crise.

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Que uso é dado à pedra que aqui é trabalhada?

Para telhados típicos de ardósia. O xisto é para as paredes, calçadas, pavimentos, mosaicos, forrar casas entre outras coisas mais ligadas à construção civil.

São muitos os que trabalham nesta arte?

Nas duas pedreiras existem seis trabalhadores.

Gosta do que faz?

Hoje em dia tem que se gostar.

Que ferramentas são usadas no trabalho?

As marretas e os ponteiros. Quanto mais finos melhor, para abrir a ardósia. Este trabalho tem muitos segredos.

Como é trabalhar na arte da pedra?

É um trabalho duro. A pedra é difícil de trabalhar e de abrir. Por vezes queremos fazer uma laje e a pedra não quer, não deixa… Mas há segredos, e acaba por ser fácil. É necessário entrar no ritmo da pedra, pois é ela que nos ensina.

Conte-me alguns desses segredos.

É a ardósia que nos ensina os segredos. E não nós. Os mais velhos dizem: "Quando elas falam até os cegos as veem, e quando cantam os surdos também as ouvem". Quando as estamos a abrir elas dão 'sinal' quando começam a estalar, para as seguirmos, para as puxar, tentando-se fazer a maior laje possível. É um som muito peculiar e característico. Chega a ser belo.

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