Já surgiu a primeira vítima de violência doméstica de 2015 em Portugal. Uma mulher, de  52 anos, faleceu vítima de golpes de faca desferidos pelo seu marido, na sua própria casa. A mulher já havia apresentado queixa na PSP por violência doméstica, apontando as ameaças que havia recebido. Após a chegada da polícia e de uma equipa do INEM, os psicólogos conseguiram, após uma conversa com o homicida, impedir que se suicidasse, retirando-lhe a faca. O homem tinha alguns golpes de faca mas, na sequência do seu internamento, não corre risco de vida.


A PSP confirmou, em comunicado, ter recebido a denúncia por parte da vítima, sublinhando contudo que o caso havia sido considerado de baixo risco e que a vítima havia regressado, "por sua vontade expressa", à sua residência. O casal estava já em processo de divórcio. De acordo com o Notícias ao Minuto, amigos da vítima referiram que a queixa havia sido apresentada "poucas horas antes de ter ocorrido o homicídio."


Faleceram 42 pessoas em Portugal, em 2014, vítimas de violência doméstica. É um crime que não se vê, se não acontecer ao nosso lado: é quase sempre cometido no espaço privado, e não no espaço público. É também um crime especialmente hediondo, uma vez que o perigo vem daquele que devia ser o primeiro defensor, e no espaço que deve ser sempre aquele onde cada um de nós se sente mais seguro, mais à vontade e com os seus: a sua própria casa, a sua própria família. 


Além dos mortos, há os feridos que não morreram porque o agressor foi incompetente na execução do que pretendia. Há todos aqueles que são agredidos emocional e psicologicamente, e cujas sequelas permanecem para a vida. E não só os próprios como as pessoas que estão à volta, nomeadamente as crianças, o elo mais fraco destas histórias de terror. Crianças que, quantas vezes, tornam-se também elas próprias vítimas de violência física, além da psicológica. A violência doméstica abrange ambos os sexos, ainda que as mulheres sejam vítimas em maior número. 

E no âmbito da violência psicológica cabem também os praticantes do crime de alienação parental, em que as crianças são vítimas da guerra entre pais e que, por esse mesmo motivo, ficam praticamente impedidas de ver um dos pais - na grande maioria dos casos, o pai - e com a total protecção da lei.

É necessário que, tratando-se de um crime público, as pessoas que estão à volta dêem a cara e dêem esse passo. Não há ameaça ou crime em que a pessoa se sinta mais desprotegida. Onde nos podemos refugiar, se a principal ameaça se encontra na nossa própria casa? Fugir para onde? 

O Estado não consegue dar resposta a tudo. A sociedade civil deve  ser a primeira a dar esse passo, a dar um apoio temporário e a ajudar quem se encontra numa situação limite. E a sociedade civil não é só a APAV, que lembrou recentemente "basta que me batas uma vez." A sociedade civil somos todos nós. Este é um crime público e todos nós devemos tratá-lo como tal.