Bem-vindo ao Aeroporto Internacional Humberto Delgado. Esta poderá ser, num futuro próximo, a saudação aos viajantes que chegarem à Portela, em Lisboa. A Câmara Municipal aprovou, por unanimidade, uma proposta para mudar o nome do aeroporto da capital. Assinala-se amanhã o 50º aniversário do assassínio do "General Sem Medo".


A moção apresentada não altera automaticamente o nome da infra-estrutura, uma vez que agora a Câmara irá apresentar esta proposta ao governo, que depois decidirá. O texto da moção refere que Humberto Delgado, além da sua importância política na oposição ao Estado Novo, foi também um "pioneiro da aviação civil". Caso se concretize, Lisboa seguirá o exemplo do Porto, que mudou o nome do seu aeroporto de Pedras Rubras para Francisco Sá Carneiro.  


Humberto Delgado nasceu em 1906, numa aldeia próxima de Torres Novas, e foi um dos militares mais destacados dos primeiros tempos do Estado Novo. Ligado à aviação e à Força Aérea, Delgado exerceu funções como adido militar na NATO e terá sido aí que despertou uma nova consciência democrática. Nas eleições presidenciais de 1958 reuniu grandes manifestações de apoio popular no país, reprimidas pela polícia, mas o sistema eleitoral viciado não lhe atribuiu a vitória. Ficou célebre a resposa que deu a um jornalista da Agência France Presse, que por trabalhar para o estrangeiro fez a pergunta que os jornalistas portugueses temiam fazer: qual o destino político de Salazar, caso Delgado vencesse as eleições. "Obviamente, demito-o" foi a resposta. 


O choque para o sistema político foi tal que não mais o Presidente da República foi eleito através de sufrágio directo universal, mas sim através da Assembleia Nacional, mais facilmente controlável - até à queda do regime. Humberto Delgado simbolizou também a primeira tomada de consciência generalizada que era possível uma alternativa política a Salazar, 13 anos depois de o fim da Segunda Guerra Mundial ter trazido um anseio semelhante. Delgado passou ao exílio, e foi nesse papel de oposicionista exilado que foi assassinado pela PIDE em Villanueva del Fresno, perto da fronteira do Alentejo.