Com a vitória do Syriza na Grécia e o surgimento do Podemos em Espanha, impõe-se a pergunta: porque não há um Syriza em Portugal? As hipóteses são várias. Uma delas é que o Bloco de Esquerda, o equivalente real do Syriza, tem sofrido problemas de liderança que o impedem de ter um rumo. Outra, que a esquerda radical em geral está demasiado polarizada (veja-se os problemas que surgiram há pouco com o recém-criado movimento Juntos Podemos, que quase morreu à nascença.) 


Outro factor é menos considerado: Portugal, "primo" cultural dos países da Europa do Sul (países de matriz cultural católica, ao contrário da matriz cultural protestante da Europa do Norte), difere neles num ponto: uma maior aversão ao risco. Um sector considerável da população portuguesa vive, de alguma forma, dos rendimentos do Estado, seja através de salários, subsídios ou pensões. Apesar da palavra que se diz na rua ou nos cafés, o eleitor-tipo parece ser de alguma forma mais avesso a correr riscos, preferindo manter o pouco que tem.


Acresce a isto que o desespero e a ausência de expectativas, medidas através de números e estatísticas, não parecem ser tão decisivos em Portugal como na Grécia. Endividamento privado, taxa de desemprego, etc., tudo isso "não está tão mau" como na Grécia. É como se os portugueses estivessem, mais uma vez, a "desenrascar-se" e à espera de outros dias. Veremos como irá a trajectória de Tsipras e Varoufakis influenciar este cenário.