Segundo um projecto de lei criado pelo PSD, PS e CDS, todos os órgãos de comunicação social só poderão noticiar as campanhas eleitorais se apresentarem previamente um plano de reportagem. Assim, as reportagens jornalísticas das campanhas terão a obrigatoriedade de apresentarem "um plano de cobertura dos procedimentos eleitorais", tal como consta no projecto de lei. Além disso, o plano será avaliado por uma comissão que é "composta pela Comissão Nacional de #Eleições (CNE) e pela Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC)".

As coberturas jornalísticas precisarão da autorização desta comissão para serem transmitidas, sendo que de outra maneira serão ilegais. Desta forma, as transmissões em directo das campanhas serão previamente formatadas e não terão nada de directo ou espontâneo, e todos os chamados "casos de campanha" não serão mais autênticos, mas encenados (como os casos, em que um candidato se encontra, "por acaso", com o seu rival e trocam um abraço).

Na semana passada, o blogue VAI e VEM, de Estrela Serrano, mencionava a situação como "uma aberração". E afirmava que os partidos que estão na origem deste projecto de lei "ensandeceram". Serrano comentou ainda que "os jornalistas têm razão em recusar tal proposta e certamente a mesma não verá a luz do dia, porque entretanto os partidos que a conceberam terão um momento de lucidez e retirá-la-ão, ou, então, o Presidente da República, num momento de clarividência, impedirá a sua promulgação". Este projecto de lei viola o princípio básico constitucional da liberdade de expressão e informação (art.º 37), fazendo dela um instrumento hostil à constituição dos portugueses. "Tenhamos a esperança que tal aborto de lei não seja publicada", disse ainda Serrano.

O presidente da República pode ainda vetar a lei. Também a União Europeia, através da Comissão Europeia para os Direitos Humanos (CEDH), pode sancionar o governo português, caso a mesma seja aprovada ou aplicada. Portanto, os jornalistas não são obrigados a aceitar a lei, se publicada, por violar direitos inalienáveis da Humanidade. Com esta proposta de lei, está também imposta uma censura informal. Porque os directores de informação, embora tendo o direito de decidirem as suas coberturas de campanha eleitoral, serão, por fim, "responsabilizados pelas suas decisões".

Neste projecto dos partidos maioritários está posta em causa a vontade e o direito individual de decidir livremente o seu voto, através da informação isenta a que qualquer cidadão tem direito. Além disso, a formatação prévia de mensagens eleitorais, tem apenas um nome: "propaganda". E desnivela a livre decisão individual a mensagens políticas. Alguns jornalistas falaram em boicotar as eleições. E uma das formas de boicote jornalístico ao projecto de lei foi apresentado por Ricardo Araújo Pereira. O humorista revelou no popular programa da TSF "Governo Sombra" que tem um plano para combater esta medida. "Já que eles querem um plano antecipado, envia-se um 'calhamaço' com mais de 3000 páginas, com tudo tão minuciosamente detalhado, até à descrição 'miudinha' da pontuação e virgulas, que eles não tenham paciência para chegar à 3ª página", brincou.