Foi a 1 de Janeiro de 1973 que o Reino Unido entrou na União Europeia. Hoje, decorridos sensivelmente 42 anos, levanta-se a discussão sobre a permanência do país nesta rede, num discurso protagonizado pelo primeiro-ministro britânico, David Cameron, um já conhecido eurocéptico. Num referendo que se realizará até ao final de 2017 o país vai escolher entre ficar ou sair da UE, numa decisão em que importa medir com consciência os prós e os contras. "Deve o Reino Unido continuar a ser membro da União Europeia?". Esta é a pergunta a que os britânicos devem responder sim ou não. Mas, antes desse momento, ninguém melhor do que dois dos mais conceituados especialistas portugueses em ciência política para dar à Blasting News uma visão muito ampla e abrangente, tendo em conta que este é um tema sensível e complexo, sobre o futuro referendo que irá ditar a vida de todos.

Publicidade
Publicidade

A visão de Bernardo Pires de Lima

Licenciado em Ciência Política pela Universidade Lusíada de Lisboa, Bernardo Pires de Lima é investigador do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa, desde 2004. Do seu percurso, destaca-se ainda a função de colunista de #Política Internacional do Diário de Notícias desde final de 2010, tendo ainda concluído o mestrado em Relações Internacionais pela Universidade Lusíada de Lisboa com uma tese de investigação centrada na política externa britânica entre 1997 e 2003, com especial enfoque na estratégia de Tony Blair para o Kosovo e o Iraque. São muitas mais as obras com a assinatura de Bernardo Pires de Lima mas importa apenas saber que haverá poucos profissionais com capacidade para descortinar com clareza a actual situação vivida no Reino Unido.

Publicidade

Para o especialista, com a eventual saída da UE, o Reino Unido não terá ganhos muito significativos, "a não ser perspectivar uma maior autonomia soberanista caso consiga alterar os Tratados e negociar a sua saída sem percalços, o que está longe de ser garantido", referiu. Recorde-se que, sem serem ainda conhecidos grandes detalhes, Londres quer alterar quatro regras essenciais na sua relação com a UE: salvaguardas em relação à zona euro, crescimento económico, mais soberania nacional e controlo da imigração. Por outro lado, relativamente às perdas inerentes a uma eventual saída, Bernardo Pires de Lima salientou em conversa com a Blasting News, essencialmente, "a perda de importância na política europeia e na relação com os EUA". Não só má para o país, esta saída pode ter duras consequências "para a Europa e para países próximos da sensibilidade atlântica", destacou, inclusive Portugal.

Bernardo Pires de Lima é da opinião de que o Reino Unido deve permanecer, por tudo o que foi referido anteriormente, e acima de tudo "porque desequilibraria a própria política europeia, acentuando um eixo continental muito centrado em Paris e Berlim", explicou.

Publicidade

A própria União Europeia também irá sentir esta perda uma vez que poderá ficar sem uma "grande potência defensora do livre comércio, apoiante dos alargamentos, da NATO, uma praça financeira como Londres e o membro mais apetrechado da Defesa", ressalvou Bernardo Pires de Lima que, abordado sobre o facto de os emigrantes portugueses no Reino Unido estarem impedidos de votar no referendo, demonstrou não ter uma opinião muito formalizada. "Concedo o direito de voto mas em tese não discuto os méritos de restringir apenas aos britânicos essa faculdade numa matéria tão sensível como a manutenção ou não do seu país na UE", concluiu o especialista.

A opinião de José Filipe Pinto

José Filipe Pinto é uma voz ativa do panorama nacional. Professor Catedrático da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, onde é Sub-Director da Faculdade de Ciência Política, Lusofonia e Relações Internacionais e Director da Licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais e dos Mestrados em Ciência Política, Cidadania e Governação e em Diplomacia e Relações Internacionais. Como investigador nas áreas de Ciência Política, Sociologia e Sócio-economia e Relações Internacionais, José Filipe Pinto tem também uma visão muito particular sobre o referendo que irá ditar o futuro do Reino Unido. Antes de mais, nesta balança que pesa as perdas e os ganhos desta decisão, importa salientar que este processo tem sido marcado por uma série de indecisões, importando, por isso, recuar ao passado. "O Reino Unido não integrou a CEE desde o início, uma vez que, para além da sua superioridade industrial, valorizou a relação com os EUA e a pertença à Commonwealth (…) Porém, quando os políticos de Sua Majestade se aperceberam dos progressos obtidos pela comunidade de que se tinham autoexcluído, em contraciclo com o declinar da indústria britânica, bateram - e repetidamente - à porta da CEE", referiu José Filipe Pinto, para quem esta contextualização é importante no sentido em que nos mostra que a entrada do Reino Unido na então CEE, mais do que "uma opção política, foi uma decisão assente no elemento económico", um factor que, mais uma vez, irá pesar na decisão britânica.

Em termos práticos, para José Filipe Pinto, David Cameron tem plena consciência das consequências que poderão advir da saída do país da UE. Além de o Reino Unido ter o "mercado comum europeu como o principal destino das suas exportações e, como tal, numa conjuntura de crise e de medidas proteccionistas por parte dos blocos económicos", não parece viável "encontrar um mercado alternativo para absorver quase metade das exportações que atravessam o Canal da Mancha", há ainda um sector que irá sofrer: o bancário. Para o especialista, o conceituado "City of London" irá perder a sua posição privilegiada como centro financeiro.

Por outro lado, as vantagens estão associadas, essencialmente, ao nível da soberania. "Uma integração regional a tender para a união política - a fase mais adiantada da tipologia proposta por Balassa - implica sempre uma soberania de serviço. A recuperação da parcela de soberania actualmente afectada à UE permitirá ao Reino Unido gerir, por iniciativa própria, dossiers como o da imigração, um dos temas que mais preocupa os britânicos, principalmente aqueles que têm uma visão pessimista do fenómeno", defendeu o responsável que é apologista da permanência do país na União Europeia. As razões são simples. "Essa manutenção servirá como adjuvante da continuação do próprio Reino Unido, um aglomerado de quatro países que não estão condenados a viver juntos para sempre", afirmou em declarações à Blasting News, recordando uma ideia defendida por Adriano Moreira que, entre muitas outras funções, é politólogo e sociólogo. O especialista defendeu que a expansão da UE para Leste foi efectuada sem que tivessem sido precavidos os indispensáveis estudos de sustentabilidade do mercado. Para o futuro, José Filipe Pinto deixa o alerta: "espero que os britânicos não repitam o erro mas, pelo contrário, contribuam de uma forma mais comprometida para o sucesso da construção europeia", concluiu. Até ao final de 2017 teremos essa certeza.