Vivem cerca de 4.420 pessoas em viadutos, jardins, estações de metro, centrais de camionagem, paragens de autocarro, debaixo das pontes e às portas de algumas casas comerciais. É uma realidade chamada sem-abrigo. São mulheres, homens, uns velhos, outros novos. As razões para “caírem na rua” prendem-se com problemas de toxicodependência, alcoolismo e patologias mentais. A vida pregou-lhes uma “rasteira” e ofereceu-lhes como casa um “telhado" a céu aberto, umas vezes com estrelas, outras com chuva e frio.

Cidade do Porto, próximo do Jornal de Notícias, não muito longe da Câmara Municipal e da estação de metro da Trindade; conseguimos abordar um sem-abrigo que acomodava a sua cama feita com papelões. Não foi fácil entabular um diálogo, tivemos de fazer um exercício de redobrada humildade para mostrarmos aquela pessoa que vínhamos em paz, apenas queríamos perceber porque se bate tão fundo. Francisco, 60 anos, estatura média, barba grisalha, lá foi dizendo: “Morava numa aldeia próxima de Viana do Castelo, fiquei sem trabalho, as discussões eram diárias na minha casa. Um dia resolvi sair e fugir para bem longe de tudo. E aqui estou, à espera da minha vez!” Duas lágrimas rolaram pela face envelhecida daquele homem.

Vila Nova de Famalicão, junto ao mercado da feira; dois jovens (rapariga e rapaz) reuniam os seus pertences para preparem “a cama” para mais uma noite ao relento. Uma vez mais, não foi fácil quebrar o gelo inicial. Explicámos o que pretendíamos e do respeito que nutríamos por pessoas que dormiam ao relento. Bina, 32 anos, contou-nos que no seu caso veio parar à rua porque deixou de ter emprego, bateu a muitas portas e nenhuma se abriu. Com contas para pagar e sem dinheiro, não teve alternativa. Adérito, de 35 anos, companheiro de rua de Bina, é toxicodependente e o #Desemprego levou-o à rua. Fazem refeições? Tomam banho? Falaram-nos da Associação Dar as mãos, situada na avenida Marechal Humberto Delgado, que vai  dando uma refeição quase diária, banho e apoio na área da saúde. 

O ator Richard Gere disse numa entrevista à revista Visão que o filme “Viver à Margem”, em que faz o papel de um sem-abrigo “alcoólico e falhado” que cai nas ruas de Nova Iorque, “é um dos melhores papéis da sua vida”. Conta que chegou a fazer de vagabundo: “A verdade é que eu estive 45 minutos a pedir esmola numa esquina de Nova Iorque e ninguém me prestou qualquer atenção". Lembra ainda que é importante este papel ser desempenhado por um ator conhecido, porque leva as pessoas a pensarem: "Se acontece com ele, poderá acontecer comigo”. E reforça: “Na realidade, isso aconteceu-me. Porque senti-me invisível nas ruas de Nova Iorque, na estação de comboio, no metro. Foi inacreditável”. E deixa uma reflexão: "Todos nós somos sem-abrigo, à procura de um lugar para morar. Mesmo quando já temos uma casa, uma família e um cão, continuamos à procura desse local num sentido mais profundo”.   #Filmes #Causas