Cheguei ao #Louriçal no Domingo à noite.

Louriçal do Campo é uma pequena freguesia de Castelo Branco, uma pacata vila com cerca de 600 habitantes, à beira da Serra da Gardunha.

O #fogo, que tinha começado naquela aldeia, estava agora no alto da serra e ameaçava a aldeia de S. Vicente.

Embora com o fogo a delinear a Gardunha, a noite foi tranquila aqui.

Na manhã de segunda-feira podia ver-se ainda o fumo que decorava o horizonte, mas, à medida que a tarde caía, os tons de cinzento iam desaparecendo, e davam lugar a pequenos focos vermelhos, que pareciam avançar no caminho.

Ainda assim, foi também uma noite sem grande alarme.

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Na terça-feira de manhã existiam duas colunas de fogo que pareciam querer descer na direcção do Louriçal.

O helicóptero, que penso ser da Protecção Civil, sobrevoou-as, avaliou-as; fiquei com a ideia que foi este que chamou os próximos meios de combate. Pouco depois, dois helicópteros e quatro aviões chegavam com os seus depósitos de água e, toda a manhã, andaram num vai e vem entre a barragem da Marateca e a serra da Gardunha.

Uma, do lado esquerdo, pareceu ter sido resolvida com facilidade. Mas a da direita descia mais depressa, e foi nessa que, praticamente, esses meios se concentraram na sua totalidade.

Com tanta água que foi lançada naquelas zonas, nada fazia prever o que se seguiria…

Mais uma vez, foi com o cair da tarde que tudo se complicou.

Mas desta vez, a forma como o vento começou a soprar, a sua força, foi algo de surreal!

Nada parecia parar a forma como o fogo era empurrado pela ventania, e de nada valeu a velocidade com que os meios de combate, aviões e helicópteros, enchiam e despejavam os depósitos de água.

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Aquela tempestade, de vento e lume, era incontrolável!

Depressa o céu se fez negro. As ruas tornaram-se irrespiráveis e os meios de combate já pouco conseguiam ver à sua frente.

O fogo chegava à vila do Louriçal!

Muitas pessoas começaram a pegar nos carros para sair da aldeia, muitos vieram buscar os seus velhotes, e muitos outros pegaram nas mangueiras e começaram a regar tudo à volta das suas casas e quintais.

O fogo chegava perto, muito perto, de tudo e de todos.

A luz falhou, e a água quase não corria…

Foram horas de aflição, de terror, durante as quais se combateu o fogo quase às cegas, quase sem oxigénio, mas com muita garra e muita fé!

Sou sincera, não vi, nesta tarde, nenhum veículo dos bombeiros. Sei também que foram muitas as pessoas que defenderam os seus próprios bens. Se tivessem fugido, hoje as suas casas seriam como a paisagem circundante: um monte de cinzas!

Ouvi queixas da falta de ajuda dos meios competentes, do desconhecimento destes de caminhos na serra onde podiam ter ‘cortado’ o fogo…

Críticas, não sei se justas ou não… Mas a verdade é que, o inferno que eu vi aproximar-se podia ter tido consequências muito piores do que as que teve.

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Pela meia-noite o vento já quase não soprava, o fumo dissipava-se, e a população acalmava.

Ao fundo conseguia ver o velho colégio de S. Fiel a arder…

Fiquei ainda alguns minutos, sobre um cabeço, a vê-lo. Ali ardiam História, vidas, ensino, tradição…

Pouco se consegue dormir numa noite destas. Nem o cansaço consegue vencer o ritmo acelerado do coração, que teima em reviver aquele inferno, vezes sem conta, na nossa memória.

E, assim, depressa nasce o dia e deparamos com aquilo que Dante deixou…

Quase toda a vila se encontrava rodeada por tons de negro, perto, bem perto de muitas casas…

Em alguns locais ainda havia fumo, para além de cinza…

Muitos perderam as suas hortas, o seu ‘chão’ como chamam, e aqui literalmente.

Pude ver também, que muitos sobreiros resistiram… Talvez o país devesse olhar mais para isso e pensar, pensar no tipo de árvores que anda a valorizar em prejuízo de outras.

A caminho de São Fiel a paisagem é também desoladora.

O Colégio de São Fiel foi criado em 1852 pelo Padre Franciscano Frei Agostinho da Anunciação, com o fim de acolher crianças órfãs e pobres da região. Foi uma das mais prestigiadas instituições de ensino em Portugal, primeiro a cargo dos Jesuítas e depois como Reformatório. Embora já tivesse encerrado completamente a sua actividade, e até sido deixado ao abandono, verem-no arder veio despertar alguma tristeza nos habitantes do Louriçal, e talvez alguma consciência nalguns governantes…

Da Igreja, colada ao colégio, também pouco sobrou do seu interior, apenas a pedra que a erguia.

Pela primeira vez acompanhei um fogo assim de tão perto. Testemunhei que, por vezes, não há realmente meios que travem a força brutal do vento e do lume. Que, muitas vezes, são os próprios habitantes, arriscando a sua vida, que defendem as suas casas e os seus bens. E que são necessárias medidas implacáveis, tanto para prevenir estes grandes fogos, como para castigar quem os provoca.

E não podemos aceitar apenas boas intenções, nem ficar pelas visitas de cortesia.

Como dizem na Beira: Bem-hajam, 'Cucos', pela vossa força e coragem! #incendios