O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, está a aproveitar da melhor forma o problema mediático e político causado pela prisão de Sócrates ao PS. Falando num jantar de natal do PSD e Santarém, Passos Coelho assumiu a voz popular, colocando críticas que se ouvem ao cidadão comum, e aproveitando também os problemas em torno de Ricardo Salgado. O primeiro-ministro desferiu ataques ao "crescimento com dívida", às obras faraónicas" e aos "donos do pais".



Segundo o Ionline, Passos iniciou por se congratular com os objectivos alcançados em 2014, nomeadamente o fim do programa da Troika dentro do prazo estipulado. Continuou vibrando ataques aos "grupos económicos protegidos pelo Estado", acusando governos anteriores, maioritariamente socialistas, de investir em obras farónicas sem grande benefício para os portugueses. Sem fazer qualquer referência ao caso Tecnoforma, Passos conseguiu até dizer que os recursos nacionais e europeus (leia-se fundos da União Europeia) foram investidos nessa "economia protegida", e portanto mal gastos, enquanto as PME não aproveitaram como deveriam, por ser quem cria riqueza e postos de trabalho.



Passos Coelho referiu também que o país está a conseguir crescer sem criar dívida, "pela primeira vez em 20 anos", por já não estar colado às grandes obras públicas. O primeiro-ministro, naturalmente, não comentou nem foi questionado se as políticas do betão de Cavaco Silva, anteriores ao período de 20 anos mencionado, não teriam criado um mau princípio. Sem referir nomes, o primeiro-ministro referiu também que "os donos do país estão a desaparecer",. numa referência implícita e bem clara à expressão "dono disto tudo" que era dada a Ricardo Salgado e que se popularizou nos últimos meses. Agora, do ponto de vista do primeiro-ministro, os portugueses sentem que o país está a mudar e a tornar-se mais transparente. Passos aproveitou ainda para justificar e defender o quociente familiar introduzido no IRS, e rebatendo críticas recentes do PS, recusando eleitoralismos por se tratar de uma preocupação com a natalidade, num momento em que se torna um sério problema nacional.



Ficou bem claro que Passos, de forma genial e enérgia, vai aproveitar todos os problemas criados em torno do Banco Espírito Santo e de Sócrates em seu benefício durante o longo período de pré-campanha eleitoral que se avizinha. Mais ainda, parece que o caso dos vistos Gold não só não está a criar problemas ao PSD - como Edite Estrela alvitrou no dia da detenção de Sócrates - como até poderá vir a ser apresentado como prova de que o Governo está a fazer tudo para regenerar o país. Espera-se uma grande prova de fogo para António Costa.