O primeiro-ministro Pedro Passos Coelho rebateu, hoje, no debate quinzenal da Assembleia da República, os comentários incómodos proferidos pelo Presidente da Comissão Europeia, Jean Claude Juncker, na passada quarta-feira. Em plenas negociações entre o Eurogrupo e o novo governo de esquerda da Grécia, e furando o muro de consenso, liderando por Wolfgang Schäuble, no sentido de não aceitar qualquer exigência da parte de Yanis Varoufakis, Juncker veio emitir declarações em sentido contrário. O luxemburguês afirmou que a troika "atentou contra a dignidade de Portugal, da Grécia e por vezes da Irlanda" e que tal deveria ser evitado em futuros apoios. Passos Coelho recusa este cenário.


O primeiro-ministro afirmou que "a Troika nunca impôs nada a Portugal que não fosse negociado com o governo", e que o governo "apresentou sempre os seus pontos de vistas a todas as partes (o FMI, a União e o Banco Central Europeu). Inclusivamente, Passos Coelho sustenta que "a credibilidade conseguida junto dos parceiros foi determinada para que determinadas matérias e condições pudessem ser alteradas." Passos sublinha mesmo que "nunca deixámos [governo] de manter contacto directo com os responsáveis das instituições", antecipando o regresso da crítica, recorrente durante o tempo da Troika, de que os assuntos estavam a ser tratados pelos funcionários menores que aterravam na Portela (futuro Humberto Delgado) em representação da mesma. 


A tomada de posição de Passos Coelho deixa uma ideia do que poderia ter sido de das reuniões do Eurogrupo saísse algo que pudesse ser interpretado como uma "vitória" do Syriza. Tal como Passos Coelho foi forçado a "alinhar" com a Troika, desautorizando os comentários de Juncker, teria de o ter feito no mesmo sentido caso Schäuble tivesse negociado algo - que pudesse ser interpretado como uma cedência. Pelo contrário, uma das entrevistas mais marcantes das reuniões do Eurogrupo foi a aparição de Maria Luís Albuquerque e Schäuble, lado a lado, simbolizando o consenso e o apoio mútuo em torno das orientações e políticas de austeridade. Desta forma, e agora que o Syriza já deu o primeiro sinal de "capitulação", ficou mais fácil para o primeiro-ministro português defender a sua posição e "contornar" as inusitadas declarações do presidente Juncker.