Na semana em que se comemora o Dia de África, um continente que, raras vezes se alguma, é objeto de referências elogiosas, impõe-se contrariar o pessimismo das narrativas e apresentar um caso africano de sucesso. Um país onde a língua oficial - o português - mantém uma convivência quotidiana e pacífica com o crioulo.

Na verdade, as mais recentes previsões feitas pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) continuam a colocar Cabo Verde no grupo dos países de desenvolvimento médio, com um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,636, valor que lhe permite ocupar a 10.ª posição em África.

Ora, aquando da independência, não foram poucas as vozes que não calaram as dúvidas sobre a viabilidade do arquipélago da morabeza, tendo em conta a escassez de recursos naturais e o facto de a independência de Cabo Verde ter resultado de um processo liderado pelo Partido Africano para a Independência da Guiné e de Cabo Verde (PAIGC), que, como a sigla indica, pretendia unir os destinos dos dois novos países.

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Desiderato inviabilizado na sequência do golpe de estado que derrubou Luís Cabral e conduziu a uma espécie de secessão e à criação do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), que se manteve no Poder na fase do monopartidarismo.

Porém, os cabo-verdianos perceberam os ventos da mudança política, até porque dispõem de uma numerosa diáspora espalhada pelo Mundo. Era preciso acertar o ritmo pelos ponteiros de um novo relógio. Daí a abertura ao multipartidarismo, ainda que com muitas caraterísticas de bipartidarismo. Uma realidade que se mantém na atualidade.

A entrada em cena do Movimento para a Democracia (MpD) e a realização de eleições livres permitiram uma saudável alternância democrática que não colocou em causa a estabilidade governativa.

Os governantes perceberam o significado e o alcance da democracia representativa e, terminado o regime de partido único, fizeram da boa-governação a imagem de marca do país.

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Conscientes de que a natureza não tinha sido muito pródiga na afetação de recursos naturais, apostaram na valorização do elemento humano e na educação como fatores determinantes do progresso.

Aposta ganha porque, de acordo com o Índice Mo Ibrahim de Boa-Governação, em 2014, Cabo Verde ocupa o 2.º lugar dos países africanos, com uma avaliação ótima no que concerne à segurança e funcionamento da lei e justiça, à participação cívica e direitos humanos e ao bem-estar.

É claro que ainda há muito para fazer, designadamente no que respeita às infraestruturas e às condições oferecidas às empresas privadas, mas isso não invalida o reconhecimento do percurso já efetuado. Não admira por isso que a União Europeia, interessada na manutenção da segurança no Oceano Atlântico, tenha celebrado uma parceria especial com Cabo Verde.

Voltando à boa-governação e independentemente das quezílias internas que sempre alimentam as disputas eleitorais, importa reconhecer que os governantes cabo-verdianos têm sabido defender os interesses nacionais sem hipotecarem os valores.

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Um exemplo a seguir, numa altura em que surgem novos-ricos - não apenas lusófonos - interessados na cadeira de donos disto tudo que pertenceu a Ricardo Salgado. Uma ocasião escolhida pelo governo de Portugal para, como Sérgio Figueiredo relata no Diário de Notícias, entregar a um acionista de vários bancos comerciais - Santander, BCP, Banif e BBVA - a supervisão bancária. Uma forma de vigilância no mínimo estranha. Para não escrever promíscua ou vergonhosa.

Por isso, talvez seja tempo de os povos lusófonos olharem para Cabo Verde com olhos de ver e exigirem uma nova atitude aos seus governantes. Uma estratégia necessária para conseguir crescimento e convertê-lo em desenvolvimento. #Política Internacional

Afinal, a boa-governação conta. E de que maneira!