Na fase do Portugal democrático, #Mário Soares, a principal referência do Partido Socialista, mantém com as #Eleições Presidenciais uma relação marcadamente bipolar, fruto de um trajeto marcado por altos e baixos no que diz respeito ao ato. Uma trajetória que convirá revisitar nos seus momentos mais marcantes.

Assim, em 1980, aquando da reeleição de Ramalho Eanes, Mário Soares, na sequência de declarações feitas pelo general numa aproximação à Aliança Democrática (AD), voltou atrás no apoio já manifestado a Eanes e colocou a Comissão Política do PS perante o dilema da escolha entre retirar o apoio do partido à figura que o 25 de Novembro tinha feito emergir ou aceitar a suspensão de Soares do cargo de Secretário-Geral até 7 de dezembro, data das eleições presidenciais.

Eanes acabaria por ser eleito com o apoio do PS, mas Mário Soares divorciou-se da campanha.

Mais tarde, nas eleições de 1986, Soares atingiria o sucesso derrotando o vencedor anunciado - Freitas do Amaral - e um camarada, amigo de muitos anos, com quem de resto se incompatibilizou até ao fim da vida - Salgado Zenha. Uma vitória que exigiu duas voltas e que obrigou o PCP a votar naquele que Álvaro Cunhal considerara como o grande entrave à construção em Portugal de um modelo socialista. Um sapo Soares. Sacrifício engolido em nome da derrota do candidato da direita.

Depois da fácil reeleição em 1991, cumprido o mandato e face à impossibilidade constitucional de uma terceira presença consecutiva em Belém, Soares anunciou o afastamento da política ativa. Uma decisão temporária porque, em 2006, terminados os dois mandatos de Jorge Sampaio, voltaria a candidatar-se ao mais alto cargo da República. Uma candidatura que, mais uma vez, criou clivagens no PS, dividido entre o apoio ao serôdio regresso soarista e a aposta em Manuel Alegre, situação que ajuda à vitória de Cavaco Silva.

A disputa com o vate de Coimbra deixaria marcas em 2011, quando Alegre foi o candidato do PS mas Soares se virou para o médico Fernando Nobre. Cavaco Silva dispensou essa dissonância e limitou-se a cumprir aquela que tem sido a regra, ou seja, a reeleição de todos os presidentes.

Na conjuntura atual, quando começaram a surgir as candidaturas para o ato eleitoral a ter lugar em janeiro de 2016, Mário Soares foi célere a manifestar o seu apoio a Sampaio da Nóvoa, cuja promoção de imagem já vinha sendo trabalhada há algum tempo nos círculos socialistas.

Porém, os estudos de opinião encomendados - e nem sempre de domínio público - podem estar na base de um novo problema para Mário Soares e, logicamente, para o PS.

De facto, o partido não parece muito convencido no que concerne ao apoio a Sampaio da Nóvoa, apesar da numerosa embaixada socialista presente na apresentação da candidatura no Teatro da Trindade. Os resultados estão muito aquém dos desejados e, como diria Guterres, basta fazer as contas.

Por falar em Guterres e em contas, depois dos socialistas se terem visto órfãos da desejada candidatura do primeiro, começam a surgir vozes a falar do Tribunal de Contas. Mais exatamente, do seu presidente, Guilherme d'Oliveira Martins, personalidade com hipótese de captar votos no eleitorado social-democrata.

Talvez tudo não passe de uma manifestação passageira de sensibilidade. É possível que a agregação conseguida por António Costa dite a lei no caso do apoio do partido a Sampaio da Nóvoa. Uma tentativa de unir as forças de esquerda na contingência da realização de uma segunda volta, embora convenha ter presente que antes das eleições presidenciais ainda terão lugar as legislativas.

Afinal, pode não passar de um fumo passageiro. Só que, como decorre da experiência, não há fumo sem fogo, mesmo que este seja apagado antes de ficar fora de controlo.

Voltando a Soares, será que, apesar da sua vetusta idade, sprintou antes de tempo?

De momento, a resposta parece negativa, mas, na eventualidade de tal ocorrer, poucos acreditarão que o novo inquilino do Largo do Rato leve o carismático socialista a alterar o rumo da sua decisão.

Coerência? Teimosia? Talvez uma mistura das duas. Em doses desiguais. Ao critério de cada um.