Era uma vez um mar deitado aos pés da Europa. Um bom comerciante, como fenícios, cartagineses e genoveses testemunharam em tempos diferentes. Um lago com fama de pensador, como os gregos não tardaram a descobrir e a espalhar. Mar que mudou de nome quando os romanos descobriram que não passava de um rio grande e salgado com duas margens. Espaços que as legiões romanas ocuparam pela conquista. Por isso o rebatizaram de Mare Nostrum.

Mar que foi votado a uma espécie de ostracismo quando os europeus da vertente ocidental atlântica - com os portugueses à cabeça - se lançaram na primeira globalização.

Um quase esquecimento de séculos de que foi despertado por força do atual globalismo.

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Um cisne negro, sendo que a cor nada tem a ver com o facto de o Mediterrâneo beijar a costa norte de África.

Mar que voltou à pia batismal. Passou a chamar-se Miseriterrâneo. Nome mais de justificado para um mar transformado num imenso cemitério juncado de miseráveis. Homens, mulheres e crianças obrigados a fugir à Geografia da Fome, na designação de Josué de Castro. Desesperados que venderam a alma e o corpo ao diabo que, como teatralizou Gil Vicente, assumiu a forma humana e é dono de um barco onde cabe sempre mais um.

Afinal, a viagem tem como destino habitual o inferno, ainda que o lume da tradição tenha sido substituído pelo sal do mar e das lágrimas.

Desesperados que os europeus designam como imigrantes, mesmo que a maioria daqueles que alcançam terra dita firme venha a ser repatriada, uma palavra que assenta no equívoco de ter na sua formação um espaço sem presente nem futuro.

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Um daqueles erros em que a História se especializou, como quando, noutro contexto, chamou retornados a pessoas que nunca tinham estado no local para onde as enviaram. Malhas que um império serôdio teceu em português.

Voltando ao Miseriterrâneo, a designação está para durar, uma vez que ninguém parece interessado em resolver o problema onde ele pode efetivamente ter solução, ou seja, a jusante. É aí que urge ajudar a criar condições suscetíveis de permitirem uma vida digna. Criar cotas de imigrantes a receber em cada Estado da União Europeia funciona como um analgésico. Alivia pontualmente a dor, mas não cura a doença.

O Mundo dito desenvolvido não está interessado no papel de cirurgião. Está mais preocupado com os seus problemas internos. Desde logo a manutenção do seu padrão de vida e a segurança da mesma, sem ter em conta que esses desideratos estão umbilicalmente ligados à situação vivida quotidianamente no antigo lago romano.

O drama dos náufragos alimenta telejornais à hora do almoço e do jantar, mas não impede a continuação da refeição.

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Os estrategas têm mais em que pensar, numa conjuntura em que os russos e os chineses estenderam os exercícios navais ao Mediterrâneo e a Grécia pode não aguentar a pressão europeia e optar por outros aliados. Essas sim, são situações que exigem acompanhamento sistemático.

Quanto ao Miseriterrâneo, vai continuar a exigir algo que está para além do preço. Milhares de vidas humanas. #Política Internacional