A recente vitória conservadora nas #Eleições britânicas evidenciou a falibilidade das sondagens e colheu de surpresa os analistas, sobretudo aqueles que olharam para um sistema eleitoral maioritário como se de um sistema proporcional se tratasse.

Na verdade, mesmo dispensando grandes explicações, importa dizer que os quatro países que compõem o Reino Unido - Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte - são divididos em 650 círculos uninominais, ou seja, cada círculo só elege um deputado, situação que distorce a proporcionalidade e limita o eventual descontentamento com as medidas tomadas pelo governo. A escolha, mais do que entre partidos, passa a ser entre personalidades, com a consequente valorização da imagem local do político e relativização do partido a que pertence.

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O conhecimento das regras do sistema ajuda a perceber a razão de David Cameron, Primeiro-Ministro em funções, ter conseguido a maioria absoluta de lugares na Câmara dos Comuns, embora não explique tudo. De facto, há que ter em conta que Cameron desarmou a oposição apoderando-se de algumas das suas bandeiras, designadamente o compromisso de submeter a referendo a manutenção na União Europeia e de controlar a imigração.

Cameron, enquanto líder do Partido Conservador, aceitou cavalgar a onda de algum populismo instalado na Inglaterra e não fez questão de relembrar o pensamento de um seu antecessor, Wilson Churchill, a quem o fumo dos charutos não impediu de vislumbrar a importância do papel inglês na construção dos Estados Unidos da Europa.

Ora, em Portugal, a vitória de Cameron foi saudada pelo atual governo como um bom augúrio para a coligação PSD/CDS-PP nas próximas eleições legislativas.

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Afinal, talvez não fosse necessário contentar-se com uma derrota honrosa, próxima do empate técnico. A vitória, ainda há pouco vista como miragem, voltou a parecer um desiderato possível e o otimismo tomou conta dos setores afetos à coligação.

Porém, Passos Coelho foi lesto na moderação desse otimismo, não em nome de um realismo que se impunha, mas concedendo espaço à sua proverbial forma de decidir ao arrepio de conselhos avisados. Por isso, nada melhor do que apresentar Dias Loureiro como um bom exemplo do espírito empreendedor. Um caso de sucesso que deveria servir de incentivo para os portugueses, ainda que nascidos no interior profundo.

Que esses mesmos portugueses tenham um mar de dúvidas - ou uma montanha de certezas - sobre a responsabilidade de Dias Loureiro no tristemente célebre caso BPN foi assunto que não incomodou Passos Coelho. Uma atitude não muito afastada daquela que tem sido a atuação da justiça no acompanhamento do processo. Uma morosidade que a anterior pertença de Dias Loureiro ao Conselho de Estado não justifica por inteiro.

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O rombo já seria de monta, mas Passos Coelho reservava mais surpresas. Daí a apresentação de uma autobiografia autorizada, um livro em que a humanização do político coincidiu com o destapar do véu que cobria algumas passagens da sua (in)experiência governativa.

Os estudiosos da governação estavam à espera que o Primeiro-Ministro entrasse naquilo que se convencionou chamar a teoria da justificação, mas Passos Coelho ousou ir mais além. Entrou em pormenores politicamente incorretos, como a demissão de Paulo Portas, o seu vice Primeiro-Ministro, por SMS, facto prontamente desmentido pelo visado. Um episódio que dificilmente poderá servir os interesses da coligação, a exemplo do lapsus linguae - para alguns sociais-democratas a boca a fugir para a verdade - que fez de Portas o líder da oposição.

Em Inglaterra, Cameron, premiado com o prémio extra da lotaria política - a maioria absoluta -, prepara-se para conviver com o problema que poderá advir do resultado do referendo prometido para 2017, tanto no que concerne à manutenção na União Europeia, como no que isso pode significar para a continuação do Reino Unido. Na realidade, é bom não esquecer que o Partido Nacional Escocês (SNP) conquistou 56 dos 59 lugares a que a Escócia tem direito em Westminster.

Um clima de incerteza que não constitui o melhor cenário para o anunciado retorno à era da prosperidade.

Em Portugal, é possível que não se tenha de esperar muito para que o governo - não necessária, mas previsivelmente através de um dos seus dois membros mais proeminentes - resolva continuar a delapidar algum do património próprio, confiante no reduzido aproveitamento que a oposição tem vindo a fazer dos sucessivos lapsos governamentais.

Porém, convirá ter presente que política é um jogo de regras pré-definidas, onde, apesar de um marketing eleitoral cada vez mais agressivo, o desempenho próprio não pode ser dispensado na criação da imagem. Uma realidade repetitiva ou ciclicamente confirmada nas urnas.

Voltando à questão da lotaria e acautelando as necessárias distâncias de forma a evitar interpretações ofensivas, não é sem razão que o povo proverbia que um parvo e a fortuna depressa se separam. #Política Internacional