A recente visita de seis dias do Presidente angolano José Eduardo dos Santos à China, a quarta desde que tomou posse, serviu para a assinatura de vários acordos no âmbito da cooperação sino-angolana.

Um facto que decorre da normalidade porque a China tem sido um parceiro privilegiado de Angola desde a fase em que muitos países ditos democráticos se mostraram pouco dispostos a colaborar com o poder instalado em Luanda. Em causa a falta de democracidade do regime angolano, designadamente no que concerne ao respeito pelos direitos humanos.

Nessa conjuntura, Pequim fez valer o seu consenso, que não anda longe de uma cooperação sem perguntas, e preencheu o espaço deixado quase vazio pelo Ocidente.

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Uma cooperação dita win-win, ou seja, feita com proveitos mútuos, apesar do efeito boomerang do capital chinês. Tudo porque as verbas que saem da conta que a República Popular da China abre a favor de Angola voltam a casa, uma vez que as infraestruturas a que se destinam são realizadas por empresas chinesas. Uma forma revisitada dos antigos e infames tratados desiguais. Ainda que com alteração de um dos intervenientes. Tal como da hierarquia contratual. Uma espécie de we-win. Em mandarim, evidentemente.

Não admira, portanto, que a China, muito dependente do petróleo para manter o ritmo de crescimento, se tivesse assumido como o principal comprador das exportações angolanas e que, na atualidade, rivalize com Portugal no que concerne às exportações para Angola.

No entanto, tudo mudou de figura quando, referindo-se aos acordos acabados de assinar, Lin Songtian, director dos Assuntos Africanos do Ministério dos #Negócios Estrangeiros da República Popular da China, afirmou que o valor do novo empréstimo era confidencial.

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Isso mesmo, um segredo só partilhado pelos presentes no ato e pelos seus confidentes.

O povo proverbia que o segredo é a alma do negócio. Porém, talvez o adágio não se aplique às situações, como é o caso, em que os governantes escondem a realidade a esse mesmo povo. Uma estranhíssima forma de jogar às escondidas. Pelo menos na perspetiva ocidental das relações internacionais.

A História mostra que quando o Presidente norte-americano Woodrow Wilson apresentou os Catorze Pontos que estiveram na base da criação da Sociedade das Nações, no final da I Guerra Mundial, procurando estabelecer as bases para a paz e para a reorganização das relações internacionais, o primeiro desses pontos exigia a abolição da diplomacia secreta. Em causa estava o reconhecimento do papel que as alianças e acordos secretos tinham desempenhado no eclodir do conflito. Uma guerra europeia pelas motivações e mundial pelos efeitos.

É verdade que nesses tempos Angola não passava de uma colónia portuguesa e a China estava longe de sonhar que, na sua quase totalidade, se viria a tornar um "Estado socialista subordinado à ditadura democrático-popular da classe operária e assente na aliança dos operários e camponeses", como consta no artigo 1.º da Constituição.

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Uma ditadura democrática. Uma espécie de chinesice que a Ciência Política não consegue enquadrar. Algo que não parece incomodar a paciência chinesa. Tal como a circunstância de o comunismo estar a subsidiar a economia capitalista não perturba o pensamento político ocidental.

Voltando aos acordos confidenciais, parece pouco consensual que os quase cem anos que passaram desde a criação da Sociedade das Nações tenham contribuído para voltar a valorizar a diplomacia secreta.

Num Mundo globalizado as fronteiras físicas perderam importância como defesa contra a invasão de outras realidades. O Poder instalado pode decretar o silêncio, mas não tem capacidade para o garantir de uma forma sistemática e duradoura.

As épocas de crise não são muito propícias à curiosidade. Os pruridos são desaconselhados. O receio de afastar o capital estrangeiro é grande. Uma realidade a que Angola não escapa. Uma economia petroleodependente. Um drama quando o preço do petróleo teima em não subir.

Essa sim é uma verdade que nada tem de secreta. #Política Internacional