Em tempos passados, quando o #Futebol não passava de um jogo da bola, Portugal sofreu uma humilhante derrota - nove a zero - face a Espanha, num jogo marcado pelo célebre Ponga los dos, gritado por um espectador quando, ainda no primeiro quarto de hora e a perder por 3 golos, o selecionador português resolveu substituir o guarda-redes.

Sendo certo que na atualidade essa diferença abismal está ultrapassada, manda a verdade que se diga que qualquer comparação a nível futebolístico entre Portugal e Espanha continua a ser claramente desfavorável às hostes lusitanas, como se comprova pelo recente triunfo do Sevilha na Liga Europa e pela presença do Barcelona na próxima final da Liga dos Campeões.

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Na realidade, a indústria espanhola do futebol dispõe, desde há alguns anos, de argumentos financeiros que não estão ao alcance dos cofres portugueses. Daí o êxodo de alguns dos melhores treinadores e futebolistas portugueses para terras de nuestros vecinos, uma designação que, a fazer fé na História, parece mais correta do que a tradicional - nuestros hermanos.

Porém, em tempos de democracia, esta descontinuidade desportiva tem sido acompanhada a nível político pela continuidade possível entre uma monarquia e uma república, por força da alternância no Poder de dois partidos. Em Espanha, o PP e o PSOE. Em Portugal, o PS e o PPD/PSD. Uma espécie de bipartidarismo a nível da sede do Poder.

Uma continuidade que os resultados das recentes eleições espanholas parecem querer pôr em causa, devido ao surgimento de duas novas forças políticas que fizeram do descontentamento popular a principal arma eleitoral - Podemos e Ciudadanos.

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As próximas eleições legislativas nos dois países encarregar-se-ão de provar ou desdizer esta quebra do modelo até agora vigente. Num e no outro país, obviamente.

No entanto, a nível político, há uma descontinuidade peninsular que não é possível esconder e que se serviu do futebol como veículo de difusão.

Em maio de 2015, em Barcelona no Camp Nou, durante a realização da final da Copa del Rey entre as equipas do Atlético de Bilbau e do Barcelona, os espectadores presentes acompanharam a Marcha Real com uma enorme pitada, ou seja, uma monumental assobiadela. Marcha Real que é o hino nacional espanhol, adotado no século XVIII e um dos poucos em que a música não se faz acompanhar de palavras, apesar de várias tentativas no sentido de o dotar de uma letra.

Do lado de cá da fronteira, no Estádio Nacional no Vale do Jamor, no último dia do mesmo mês, aquando da final da Taça de Portugal entre as equipas do Sporting Clube de Portugal e do Sporting de Braga, os espectadores que lotaram as bancadas cantaram A Portuguesa a plenos pulmões.

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A Portuguesa que começou por ser uma canção de protesto, com música de Alfredo Keil e letra de Henriques Lopes de Mendonça, e que viria a ser adotada como hino na vigência da I República, como se pode ler na Constituição de 1911.

Voltando ao futebol, em Barcelona estavam presentes dois emblemas provenientes de duas das comunidades autónomas - País Basco e Catalunha - que não se reveem na Espanha e que ambicionam a independência política. Uma ambição antiga. Por isso, a memória coletiva tem bem presentes os atentados cometidos pelos terroristas da organização separatista ETA e não esconde a sua preocupação ou ansiedade relativamente à questão do referendo visando a independência da Catalunha.

No Vale do Jamor, num encontro dirigido por um árbitro vindo de uma Região Autónoma - a Madeira - estiveram em campo o vermelho da formação arsenalista proveniente do Minho e o verde das cores oriundas da Estremadura. Verde e vermelho, as cores da bandeira nacional, ainda que o resultado final não tivesse respeitado as proporções exigidas pelo símbolo nacional. Ganhou o verde, apesar de a bandeira conceder maior superfície ao vermelho. Sortilégio do futebol que em nada põe em causa o sentimento de pertença a um todo coletivo.

Em Portugal, ao contrário do que se verifica em Espanha, não são conhecidos nacionalismos ou regionalismos divergentes. Há rivalidades - regionais e locais - mas o centralismo macrocéfalo de Lisboa não constitui ameaça para a manutenção da unidade nacional.

É do domínio público que o desporto, particularmente o futebol, concede o direito à nacionalidade em função do jeito para o desempenho desportivo. Aqui como do outro lado da fronteira e por quase todo o Mundo. Só que, felizmente para Portugal, a cultura de um povo é obra de séculos. Construção coletiva. Com um ativo e um passivo. O cimento que liga gerações.

No jogo da bola, o treinador português não conseguiu resolver o problema com a substituição do guarda-redes.

No jogo da política, é altamente duvidoso - o eufemismo que esconde a impossibilidade - que o governo de Madrid, mesmo contando com o apoio do rei, consiga unir as 17 comunidades e as 2 cidades autónomas numa nação.

Futebol e política. Portugal e Espanha. Uma mistura explosiva. Blasting! #Política Internacional