Numa conjuntura em que a situação da Grécia continua a ocupar os espaços informativos e não apenas do Ocidente, talvez se justifique uma abordagem diferente da questão. Uma análise que não se preocupe, exclusivamente, em identificar os culpados. Que existem. No caso grego, pela mão do PASOK, da Nova Democracia e pelo discurso arrogante do Syriza. No caso da União Europeia, ou mais exatamente da Zona Euro, pela falta de solidariedade dos membros que menosprezam a coragem manifestada em referendo e ofendem a dignidade de um povo.

A abordagem será de outro âmbito. Socorre-se de um exemplo. Uma situação em que Portugal foi parte interessada.

Publicidade
Publicidade

Apesar de, na altura, desconhecer oficialmente essa condição. Situação que, no presente, continua a desinteressar aos órgãos do Poder. Não convém falar do que se deseja esquecer.

Mas vamos a factos, tendo como fonte um documento que foi secreto.

Henry Kissinger, Secretário de Estado e Conselheiro do Presidente dos Estados Unidos para os Assuntos da Segurança Nacional, e James Schlesinger, Secretário da Defesa, tinham reuniões no Pentágono, ao pequeno-almoço, para discutirem os principais assuntos de interesse para a política norte-americana.

Ora, numa dessas reuniões, iniciada às 7h 45 m do dia 22 de janeiro de 1975, Kissinger, preocupado com a probabilidade elevada - 50%, segundo o próprio - de o Partido Comunista tomar conta do Poder em Portugal, lançou a ideia de que os Estados Unidos deveriam ter um programa em Portugal.

Publicidade

Era a guerra fria a ditar a lei. Portugal estava na zona de influência norte-americana. Pertencia à NATO. Incluía os Açores onde os EUA beneficiavam de vantagens na utilização da Base das Lajes.

Schlesinger sossegou-o. O plano de contingência existia. Os interesses norte-americanos iriam ficar salvaguardados. Bastava, tão somente, estimular a independência dos Açores. Mesmo que os açorianos não sentissem tal apelo.

A leitura do documento, entretanto desclassificado, não deixa dúvidas sobre o cinismo oportunista com que a Administração norte-americana encarava as suas relações com Portugal.

Kissinger não acreditava em Mário Soares. Considerava-o um novo Kerensky. Cunhal, na sua opinião, iria desempenhar o papel que coube a Lenine na revolução russa. Como outros documentos já desclassificados permitem testemunhar.

Havia que defender os interesses norte-americanos. A Base das Lajes era indispensável. Ainda por cima, a um custo irrisório. Quase, apenas, a troco da garantia dos postos de trabalho e da amizade.

Publicidade

Que, afinal, funcionava só num sentido. Privilégio dos ricos. Dos poderosos. A quem nada podia ser recusado. O receio de represálias sempre no horizonte. O medo como fator de decisão. Sempre a bem do mais forte. Como em tantos outros exemplos que inventariei no livro Lisboa, os Açores e a América: Jogos de Poder ou Rapina de Soberania?

Exemplos que podem ajudar a compreender a atual crise grega. Tsipras e Varoufakis deveriam saber que David e Golias não fazem parte da História da Grécia clássica. Quanto mais da Grécia atual!

Na conjuntura presente, a funda e as pedras, ainda que sob a forma de reparações da barbárie nazi, são impotentes face ao sistema de interesses que dita a norma. Tal como um herói isolado. Facilmente transformado em D. Quixote. Enquanto um povo é obrigado a ajoelhar. Não para rezar ao Deus da Esperança. Antes chamado a cumprir uma penitência dolorosa. Em nome de erros de que só parcialmente é culpado. A escolha incorreta dos governantes que lhe são apresentados.

Para sorte de Tsipras, o sistema não lida bem com o desconhecido. A aporia. Daí a assinatura do acordo de transição. Resta saber como vai reagir o povo grego a novo ataque de austeridade. Sacrifícios em proveito do sistema. Que está longe de se resumir à manutenção de 19 países na Zona Euro. Ao contrário da mensagem vendida pela ilusão.

Eleições antecipadas? É provável, sendo que há cenários bem piores e de consequências mais gravosas.

Hoje como no passado, os grandes interesses estão em campo. #Política Internacional