José Ramos Perfeito vive permanentemente no Reino Unido há cerca de 10 anos, sendo que a razão de emigrar prendeu-se não só por razões profissionais mas também familiares. Marisa Celestino está no país há 3 anos e meio e mudou-se por motivos profissionais e para melhorar a sua condição de vida. Claudia Belchior emigrou em Abril de 2014 por incapacidade de encontrar em Portugal um trabalho cujo vínculo não fosse precário. São três histórias de vida ímpares que em comum têm o facto de viverem, no quotidiano, as vicissitudes e os desafios de serem parte integrante de um país que não os viu nascer. A Blasting News quis conhecer também a perspectiva daqueles que, no futuro, terão de lidar com o impacto de uma eventual saída do Reino Unido da União Europeia.

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Blasting News - Que impacto acredita que terá a eventual saída do Reino Unido da União Europeia?

José Ramos - Não são somente os problemas de carácter económico, dado que a Libra, saindo do encosto da União Europeia irá sobrevalorizar e ninguém irá comercializar em Libras, o que acontece um pouco já hoje na sua comparação com o Euro e o Dólar nos mercados internacionais. Essa situação trará inicialmente a dificuldade da indústria transformadora em exportar os seus produtos, a médio prazo uma deslocação dessa mesma indústria para mercados mais atractivos o que já aconteceu anteriormente. Dou o exemplo da fabricação de calçado que estava estabelecida na zona de Midlands (Northamptonshire) e que muito devido à capacidade das indústrias portuguesas do sector desapareceu completamente.

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Sobre a instabilidade e coesão social convém relembrar que o Reino Unido não é, em termos sociais, demasiadamente brando ou pacífico.

Existirá claro, uma redução da capacidade de intervenção no exterior, uma inferiorização da diplomacia britânica (que eu penso que já existe, basta olhar para o Médio Oriente) bem como no peso que o Reino Unido ainda detém nas mais diversas organizações mundiais, ainda cobertas pelos resquícios do Império Britânico em que uma provavelmente mais Germânica e Bismarkiana Europa terá todo gosto de substituir.

Mas o maior problema será a coesão territorial e política. Não podemos esquecer que o Reino Unido é uma união de nações e todas elas vêem de forma diferente a sua relação com a União Europeia. A questão da Escócia é a mais visível e pública mas temos de olhar também para o País de Gales e para a Irlanda do Norte (Ulster).

Portanto, a saída da Europa é mais negativa do que positiva, no ver de alguns britânicos. Se existem alguns factores que vale a pena reflectir, como a recuperação da soberania legislativa em termos de leis naturais, o fim do financiamento para a UE, o efectivo controlo das fronteiras, a imposição de taxas de emigração, de comércio, podem ser colocados na balança mas não chegam para equilibrar com os efeitos da UE no Reino Unido.

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Marisa Celestino - Depende da condicão do britânico. Para quem tem qualificação profissional penso que não terá grande impacto, mas quem não tem qualificações profissionais poderá ter, dado que terão que se sujeitar (como a maior parte dos emigrantes) a trabalhos "que ninguém quer fazer" pois o sistema de suporte social está saturado e o corte de benefícios e ajudas sociais já está a ser uma realidade. Muitos britânicos que vivem de benefícios vão ser obrigados a ter que arranjar trabalho para viver.

Claudia Belchior - Se o Reino Unido sair da UE preocupo-me pelo meu futuro, dado que temo que a situação de emigrantes se precarize mais. Atendendo a recentes propostas de lei que visam o arresto de salários de emigrantes regulares e atitudes xenófobas contra emigrantes de países comunitários ou extra-comunitários, sobretudo nos media, preocupa-me o futuro de tanta gente neste país e o meu em particular. Neste momento, o anúncio do referendo foi o suficiente para debilitar a economia britânica, o que é preocupante para toda a gente que aqui vive.

BN - Os emigrantes portugueses estão impedidos de votar no referendo sobre a permanência do País na UE. Concorda?

JR - Ainda não está estabelecido que seja assim mas será provavelmente o cenário que vamos ter no referendo. Se concordo, não, não concordo por, vamos dizer, default. Ou seja, o nível eleitoral permitido aos emigrantes com residência permanente ou seja "legalizados" (o que isto queira dizer) é para o poder local e para as Autoridades governamentais, Concelhos distritais, Boroughs e os Condados. São estes órgãos e os seus eleitos (os Councilors) que representam as massas de emigração no país e claro, junto do Parlamento e do Governo por representação indirecta.

Portanto, os emigrantes não votam para as legislativas (como se designam em Portugal) por motivos que não vou agora aqui referir, mas já é efectivamente assim e os emigrantes muito possivelmente não vão votar no referendo sobre a UE.

No entanto, eu não concordo com essa norma eleitoral, apesar de ter dupla nacionalidade e poder votar no meu caso pessoal, deve ser dado a todos aqueles que contribuem para a riqueza de um país o poder de votar em quem querem que governe o seu próprio dinheiro e vida, mas como aliás, a Europa não é uma união em casos como estes, aqui está um exemplo daquela que se costuma chamar a mais velha democracia parlamentar do mundo. Mas não para todos!

MC - Por um lado concordo, pois deverão ser os cidadãos de nacionalidade britânica a decidir o melhor para o seu país. Mas, por outro lado, dado que resido/trabalho (desconto fiscalmente e contribuo para o desenvolvimento do país), sinto que também poderíamos ter algum voto na matéria.

CB - Não concordo, mas entendo que no conceito de soberania de um país não se incluam estrangeiras/os. Ainda assim, quem conseguiu ter direito a residir legalmente neste país, deveria ser ouvida/o.

BN - O Reino Unido deve continuar a pertencer à União Europeia? Qual é a sua opinião?

JR - Vou votar no YES, ou seja SIM que representa a continuidade do Reino Unido na União Europeia. Eu entendo e compreendo que a Europa que existe não é a Europa que foi referenciada em 1973, (Em Portugal conhecida como a CECA) mas esta é a que temos e só poderemos alterar o que achamos que está mal, fazendo parte dela.

Também acho que apesar de aceitar a autodeterminação e o direito à independência dos povos que constituem o Reino Unido, existe um elo que os une culturalmente e socialmente que não deve ser quebrado por remarques nacionalistas, mas que essa independência se devesse ao sentido da humanidade e não porque economicamente é mais lucrativo ser-se independente.

Para mim, um Marxista, toda a experiência de vida e existência se baseia na correlação de forças, é assim no universo, na física, " …para uma acção, há uma reacção…" e também, claro, na nossa humana breve existência.

O abandono do Reino Unido que já se verificou desde que David Cameron entrou para o Governo da União Europeia desestabiliza a correlação de forças que depressa se estabeleceu na Europa ou seja entre o Reino Unido, a Alemanha, França, Itália, Espanha, Holanda, deixando a Alemanha, seguida da França com carta-branca para impôr as suas condições em relação aos outros, realidade que já se verifica.

O facto de o Reino Unido não ter entrado, devido a Thatcher, na moeda única e o Euro se ter baseado no Marco Alemão sem ter oposição em termos de valor de divisa acabou por criar as discrepâncias que hoje temos nas mais diversas regiões europeias, agravadas pelas crises dos mercados financeiros. Precisamos do Reino Unido na Europa, mas não podemos governar em casa dos outros ou dizer ao outros como governar a casa. Assim como o Reino Unido que se arrisca a não o ser mais tem de se adaptar ao mundo que evoluiu desde que o Império onde o sol nunca se põe, caiu e talvez reconsiderar os seus campos de influência reais. Os Estados Unidos não são os salvadores para todas as situações.

MC - Sim, na minha opinião deve continuar na União Europeia, até porque, como emigrante, de nada é favorável a saída.

CB - A saída do Reino Unido da UE será o enfraquecimento da UE como um todo e que, não sabendo reformular-se poderá ser o seu fim. Impõe-se uma reflexão sobre o modelo da UE como mais democrático e menos corrupto. #Política Internacional