“Uma democracia que não for capaz de contar com a experiência e a sensibilidade das mulheres é certamente uma democracia imperfeita ou incompleta”. A expressão utilizada por Paula Teixeira da Cruz, antiga Ministra da Justiça, já denota uma evidente preocupação com a questão da igualdade de oportunidades. Concretamente, o aumento do número de presenças femininas na Assembleia da República é um passo importante mas não é o suficiente para se alcançar uma real igualdade de género na política.

Portugal tem passado por profundas transformações nos últimos anos é certo e no que concerne à paridade efetiva de oportunidades na esfera política muito se tem conquistado.

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Recorde-se que, em 2006, foi aprovada a Lei da Paridade por iniciativa do PS e que obriga a uma representação mínima de 33% de cada um dos sexos. Só agora, em 2015, esta lei está efetivamente a ser cumprida.

As contas estão feitas. Num total de 230 lugares, 76 são ocupados por mulheres. A BN conversou com duas delas, curiosamente deputadas do PS pelo círculo eleitoral de Coimbra. Helena Freitas, cabeça de lista, é bióloga, vice-reitora da Universidade de Coimbra e foi já Presidente da Liga para a Protecção da Natureza. Elza Pais, ex-secretária de Estado da Igualdade, é investigadora e docente universitária, e já foi presidente do Instituto Português da Droga e Toxicodependência.

Se, para Helena Freitas, este expressivo passo no caminho da igualdade de género na política, foi o espelho de “uma mudança positiva e reveladora de um claro progresso na sociedade portuguesa, que nos deve entusiasmar a continuar a fazer mais”, para Elza Pais há “ainda uma margem de progresso que espero poder ser percorrida doravante até à paridade de 50% ou, no mínimo, como recomenda o Conselho da Europa, de 40%”.

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Mulheres tão capazes quanto os homens

A promoção da igualdade entre mulheres e homens é uma tarefa fundamental do Estado. Ser escolhida para representar os interesses dos cidadãos deve ser uma missão e o facto de ser mulher nunca deverá ser um impeditivo para a concretização de qualquer objetivo. “As mulheres são tão capazes na política, como em qualquer tipo de tomada de decisão, como os homens. Aliás, 60% dos licenciados são mulheres, não faltando base de recrutamento qualificado em função do género”, defendeu Elza Pais. O que importa questionar é o preconceito e o estereótipo que ainda existem. “Há que romper essas ideias erradas e rasgar esses mitos, o que não é fácil (…) Se uma mulher falhar, arrasta consigo a imagem de muitas outras mulheres, quando é um homem, a questão torna-se irrelevante porque está inscrita no quadro de normalidade em que as práticas sociais no masculino se inscrevem”, ressalvou a deputada.

Uma mulher na política faz, pensa e age diferente. Recorrendo à expressão de Michelle Bachelet, “quando uma mulher entra na política, muda a mulher, quando várias mulheres entram na política, muda a política”, Elza Pais depositou a sua inteira confiança neste novo ciclo.

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“A mudança está a acontecer e espero que num futuro não muito longínquo estas questões deixem de se colocar e as pessoas possam exercer os cargos políticos em função das suas características e competência e onde as amordaçadas de género possam ser completamente ultrapassadas”, concluiu Elza Pais.

Uma oportunidade para promover a igualdade

Com este crescimento expressivo do número de mulheres na Assembleia da República, Helena Freitas espera que, na próxima legislatura, estejamos perante “um Parlamento mais diverso e mais activo na promoção de políticas públicas de promoção da igualdade”.

Já existem fortes indícios de mudança, a começar pelo Bloco de Esquerda, por exemplo, um partido onde as mulheres ocupam as principais posições de topo no que diz respeito à liderança e à negociação política.

Todavia, a palavra preconceito ainda pesa e esta é, por isso, uma oportunidade para a promoção da igualdade. Elza Pais, Helena Freitas e 74 outras mulheres assim o desejam. #Eleições #Direitos