Esta maior expressão das mulheres na Assembleia da República deve ser encarada segundo várias perspectivas. Por um lado, para Maria Patrão Neves, não podemos esquecer que tal aconteceu porque está em vigor um sistema de quotas para as mulheres e, por outro lado, esta percentagem corresponde exactamente ao que está estipulado pela legislação. Daí que, juntando todos os factores, a actual consultora para a Ética da Vida do Presidente da República seja peremptória: “não encontro razões para celebrar”.

No imediato, não acredita que se evidenciarão mudanças significativas. No entanto, “se cada uma das mulheres se assumir na sua personalidade própria é provável que, a pouco e pouco, comecemos a ver algumas diferenças na forma de fazer política no sentido de um discurso menos agressivo e mais construtivo – como eu gostaria de acreditar”, partilhou.

Quando se compara com as práticas assumidas na Europa, Maria Patrão Neves acredita que as medidas existentes em Portugal estão em linha com os restantes países europeus. Mas há que pesar duas vertentes no domínio do emprego em que esta desigualdade se torna mais evidente, nomeadamente: no processo reprodutivo e no salário.

“Não me restrinjo a pensar no processo de gravidez e na maternidade, bem como na assistência à família, mas também em outras situações frequentes como sejam abortos espontâneos ou deliberados, recurso a técnicas reprodutivas, gravidezes de risco, etc. a quebra de assiduidade é penalizadora para as entidades empregadoras que assim procuram evitar contratar mulheres que consideram mais propensas a viver as situações apontadas ou outras que impliquem ausências prolongadas”, defendeu a responsável.

Por outro lado, a questão salarial sempre foi um tema muito debatido. Apesar da aparente igualdade entre os sexos, os salários entre homens e mulheres continuam a ser bastante díspares, para tarefas muitas vezes idênticas. Isto é “inadmissível à luz do direito e da moral, o que seria facilmente corrigido por via jurídica mas continua (quase inexplicavelmente) a persistir”, colmatou Maria Patrão Neves que, na sua própria pele, já foi alvo de discriminação, mas pelo aspecto positivo, referindo-se a 2009 aquando do convite para integrar a lista de candidatos ao Parlamento Europeu. “O partido precisava de apresentar uma candidata, e não obstante eu querer acreditar que terão havido outras características a apontar o meu nome, não há dúvidas que o ser mulher constituiu o factor determinante”, recordou. Apesar de tudo e sabendo que tem de trabalhar mais e melhor do que todos para provar o seu valor, Maria Patrão Neves nunca se sentiu prejudicada, embora tenha plena noção da existência de uma certa “solidariedade masculina que torna qualquer integração ou competição extraordinariamente difícil”, concluiu em declarações à BN. #Eleições #Direitos